Domingo, 7 de Agosto de 2011
publicado por JN em 7/8/11

Por esta altura, já estou mais do que conformado com a infantilização da espécie. Virem-me com Balzac ou com Lightning McQueen, o carro falante de Radiator Springs, já é igual ao litro – e se de repente se reúne à minha volta uma horda aos berros, que quer ir ver os vampiros, ou os lobisomens, ou os dinossauros, ou os zombies, ou os super-heróis, ou os extra-terrestres, ou os dragões, ou os elfos, ou os duendes, ou os hobbits, ou os ogres, ou as sereias, ou os feiticeiros, ou os videntes, ou os mentalistas, ou os guerreiros azuis, ou os carros falantes, ou os brinquedos falantes, ou os cães falantes ou outra trampa qualquer falante que os da minha idade andem loucos por ir ver, desculpando-se com “os miúdos” de forma a disfarçar a sua própria incapacidade para processar outra coisa que não filmes para crianças e livros para crianças e jogos de computador para crianças, eu ergo o copo e não me ocorre dizer senão: “Epá, comprem bilhete para mim, que eu também quero ir ouvir falar o sacaninha do automóvel!”

Ser capaz de, em momentos seleccionados, enfiar um barrete de sorriso na cara é coisa que, ao final de uma certa experiência neste mundo, se inscreve no próprio manual de instruções da conservação de amigos. Há gente na minha vida que só gosta filmes de brincar, pronto. É chato, mas é assim. De resto, sempre me orgulhei de ter, entre as pessoas da minha mais restrita estimação, um pouco de tudo. Tenho ricos e pobres, intelectuais e brutamontes. Tenho portugueses e brasileiros, goeses e açorianos. Tenho académicos e arquitectos, contabilistas e padeiros. Tenho sportinguistas e benfiquistas, portistas e gajos do Belenenses. Tenho gente de direita e gente de esquerda, gente que não liga à política e até um socialista, que por acaso só no outro dia descobri que era socialista, mas nem por isso disse nada. Em havendo folia, contem comigo. Se é para comer e beber, contem comigo. Se é para ir à bola, jogar 18 buraquinhos, ver uma peça dos Artistas Unidos, chamar nomes aos tipos da Emel – enfim, se é para fazer uma coisa divertida, contem sempre comigo.

Naturalmente, contem comigo também para o cinema. E, em sendo o filme imbecil, pois paciência. Assim como assim, adoro pipocas, como já aqui assumi, de resto num acto não totalmente desprovido de coragem (sobretudo tendo em conta que ainda gostava de vos vender uns livrinhos).

Agora, a filmes em 3D não vou mais. Não vou. Porque o cinema em 3D, seja em que sala for, fale a intriga do que falar, tenhamos nós à volta a equipa de luta greco-romana do Benfica ou  um autocarro de turistas finlandesas em trânsito para Albufeira, é sempre um barrete – e um barrete tão grande que nem para conservar um amigo vale a pena enfiar. Ainda no outro dia li um artigo de Walter Murch, editor oscarizado e responsável pela montagem de “Apocalypse Now” ou “O Paciente Inglês”, em que ele dizia que o 3D não funciona porque cria problemas de perspectiva e de panorâmica. Talvez tenha razão. A mim, faz-me reflexo. E inquieta-me sair de casa para ver um filme, pagar um bilhete ao dobro do preço, comprar uns óculos especiais, passar os primeiros quinze minutos num tira-óculos, põe-óculos, tira-óculos, põe-óculos, tira-óculos, põe-óculos, ao sabor da publicidade e das apresentações – e depois ainda ver o filme todo cheio de reflexos, só por causa de um bocadinho mais de profundidade de campo, que ainda por cima tem alguma expressão com a tecnologia Real 3D, mas não tem quase nenhuma com a tecnologia Digital 3D, que é o que por aí mais há.

Querem a minha opinião? É golpe. É marketing do mau. É banha da cobra. Pelo amor de Deus: onze euros? Por onze euros, e numa economia assim, o mínimo que eu peço é que a Scarlett Johansson saia da tela e se venha sentar ao meu lado, no escurinho. De resto, é só fazer as contas. Uma família de quatro pessoas vai ao cinema. Cada um paga onze euros de bilhete e mais meio euro pelos óculos. Se comerem pipocas, então a conta sobe: mais uns três euros por pessoa, em média, entre as pipocas e as bebidas. Factura (e isto sem gasolina nem hambúrgueres no McDonalds): 58 euros para um cineminha em família. Onze contos e seiscentos, como se dizia no tempo em que o cinema não era quase todo uma bodega.

Eu quero é que o senhor Ridley Scott vá gozar com a cara de outro.

CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")

NS', 6 de Agosto de 2011

(imagem: © www.ps3blog.net)

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1 comentário:
De Irina A. a 7 de Agosto de 2011 às 11:45
E porque entretanto nos esquecemos daqueles outros óculos 3D que tínhamos em casa, voltamos ao cinema para ver mais um filme 3D e desembolsamos mais uns quantos euros em óculos.
Pago os óculos e no final pedem-me para os depositar num caixote de reciclagem.
E entretanto vendem-me uns óculos estilo Ray-Ban Wayfarer que eu, já só depois de chegar a casa e de me olhar ao espelho, descubro que me ficam muito mal. E o raio dos óculos não serve para andar na rua e mal servem para ver eclipses.
E depois com aquele tira-óculos, põe-óculos, percebo que não apanhei metade do filme.
E o raio dos óculos 3D que não encaixam em cima dos óculos de ver…
Que desgraça, caneco.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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