Domingo, 10 de Julho de 2011
publicado por JN em 10/7/11

Campónio encartado, dou por mim, ciclicamente, a caminho de uma dita “unidade de turismo rural” escondida atrás de alguma montanha, no meio de uma floresta, no fundo de uma herdade. Raras vezes a experiência redundou noutra coisa que não em fracasso. E, no entanto, torno a ter uns dias livres, confiro a impossibilidade de dar um salto aos Açores – onde continuo sem descobrir como posso evitar que os melros pretos me comam os tomates de capucho – e já aí estou de novo à procura de uma (adoro esta palavra) unidade. Gosto razoavelmente de bichos, gosto bastante de árvores, gosto muito de espaços abertos e gosto ainda mais das gentes do campo. Gosto, preciso delas, deles, disso. E não é por, passados dois dias apenas, estar já a morrer de saudades da cidade, de bueiros por onde saem fumos pestilentos, de inspectores da EMEL e de esquinas onde os rapazes urinam de pé e as raparigas como calha, que deixo de voltar ao chamado turismo rural na oportunidade seguinte.

Agora, que há meia dúzia de gestos de caridade com que os proprietários dessas (cá vai outra vez) unidades podiam prevenir tais saudades, tão inesperadas como absurdas para um campónio encartado, isso há. Por exemplo: podiam evitar apresentar-me uma sanita velha, com um daqueles tampos rachados que dão beliscões quando nos sentamos, como uma pérola do mobiliário pós-vitoriano, apenas conservado em resultado do empenho dos proprietários e do sereno tráfego intestinal dos visitantes. Podiam apresentar-me o quintal, e até chamar-me a atenção para o monte de silvas ao canto, sem começar de imediato a declamar odes às amoras que ele produz e às compotas que com elas se fazem, se ainda por cima estamos em Maio e nem sequer em flor as silvas estão. E podiam, já agora, evitar mandar-me tomar banho antes de entrar na piscina natural, na presunção de que trago comigo suficientes micróbios para contaminar as rãs com que tenho de nadar e o mosquedo que, ao longo de toda essa aventura, sobre nós esvoaçará.

De resto, e muito honestamente, não há paciência para os moderninhos de Lisboa que a si próprios se transformaram em anfitriões de turismo rural. Não há paciência para o seu cosmopolitismo bacoco, para a sua contemplação ostensiva, para a sua pose missionária. Nem quero saber se deram o berro, se decidiram ter filhos em ambiente mais saudável, se apenas perderam o emprego e não tiveram outra solução senão pegar nas terras que um tio velho lhes deixara. Muitos anfitriões de turismo rural que conheço nunca plantaram uma batata e, no entanto, asseguram-se mais campestres do que um pastor da Serra D’Aire. Ao pé de um anfitrião de turismo rural português, até um camponês de Trás-Os-Montes se sente culpado por ter um cartão multibanco e um telemóvel de carregamentos. Para além de tudo, há-de ser comedor de carne, utilizador de carro e mesmo utente de um centro de vacinação – vai ter mas é de ouvir o sermãozinho todo, que não é melhor do que os outros.

Aliás, não há nada de que o proprietário de uma unidade de turismo rural portuguesa goste mais do que de falar durante a tarde inteira e de ser ouvido durante a tarde também. E o script é simples. Na primeira hora, todos eles são contemplação, compostagem, espírito blue. Na segunda hora, todos eles são neurose, protesto contra as limitações da região e lamento por não ser possível combinar o melhor do campo e o melhor da cidade numa vida só. E na terceira hora, vistos os nossos braços levemente abertos de quem diz “Ouça, meu bom homem, minha boa senhora, deixem-nos gozar um bocadinho o cheiro destas oliveiras, que amanhã já temos de fazer-nos à estrada”, todos eles são fundamentalismo, repreensão velada e julgamento definitivo sobre o quão aquém nós estamos de tudo aquilo, sobre como somos ignorantes e brutos e assassinos e indignos do seu esforço, da sua piscina natural, do seu silvado fértil, da sua sanita beliscadeira.

E, porém, no ano seguinte estou a caminho de uma nova unidade de turismo rural, disposto a pagar mais duzentos e trezentos euros por duas noites mal dormidas. Já saio de Lisboa aborrecido, para dizer a verdade. Mas, mais dia menos dia, encontro uma que tenha tomates de capucho – e, então, talvez o anfitrião me ensine a protegê-los dos melros pretos. Ainda não experimentei os métodos dos moderninhos.

CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")

NS', 9 de Julho de 2011

(imagem: © www.azinhalturismorural.com)

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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