Domingo, 3 de Julho de 2011
publicado por JN em 3/7/11

De férias durante um período não necessariamente correspondente às semanas em que esta coluna esteve ausente, dei-me conta, a certa altura, de que o Sporting disputava o playoff do campeonato nacional de futsal. E, não só os meus consócios celebravam em delírio cada golo marcado no dito playoff como, ainda por cima, a coisa viria a durar a quase totalidade desses dias em que eu devia estar a descansar do trabalho, dos calores do debate e, principalmente, do jogo do pontapé na bola, que de tanta melancolia me tem preenchido ele.


Fiquei perplexo. Por um lado, e determinados a proporcionar ao mundo uma prova cabal do quão baixo descemos, os meus consócios demonstravam considerar o futsal uma modalidade desportiva digna de celebrações. Por outro, e a julgar pelo nível de euforia, o futsal insinuava-se de repente como um ressarcimento, ainda que vago (e, mesmo assim, não sei), pelas agruras acumuladas no futebol a sério ao longo dos últimos nove anos. Acarinhei a perplexidade durante uma data de dias, enquanto se realizava aquela desconcertante caminhada em direcção a tão pequenina glória. E depois, incapaz já de continuar perplexo, decidi ficar apenas chateado.


Para quem não sabe, o futsal é a aquela coisa que algumas senhoras mais antigas talvez ainda confundam com futebol, mas que no fundo é sobretudo a única “versão” do “futebol” (notem-se as aspas) que os homens da nossa idade, com o abdómen e consumo médio de nicotina dos homens da nossa idade, conseguem jogar. Disputa-se num campo pequenino, que com esforço até somos capazes de percorrer de uma vez só – e, vistos ao longe, os seus praticantes parecem como que murganhos com tosse convulsa, erguendo e voltando a erguer os seus rabos de croissant-lovers, numa sucessão de saltinhos destinada sobretudo a dar a ideia de que aquilo é uma enorme correria.


Por um lado, é de facto uma enorme correria. Por outro, também o futebol de praia, o corfebol e o jogo do mata são enormes correrias, e nem por isso se reclamam substitutos para o futebol. Porque é que o futsal o faz? No fundo, o futsal está para o futebol como as damas estão para o xadrez: não arte ou profundidade, mas mesmo assim ninguém fica sem comer peças ao adversário. Má comparação, é verdade – apesar de tudo, as damas e o xadrez jogam-se em tabuleiros do mesmo tamanho. Pronto, o futsal está para o futebol como o mini golfe está para o golfe a sério: os campos são mais curtos, mas mesmo assim onde um tem lagos e bunkers de areia, o outro tem dinossauros e montanhas-russas que engolem as bolas e as levam para longe também. Má comparação, é verdade – apesar de tudo, o golfe e o mini golfe jogam-se com bolas das mesmas dimensões.


Pronto, o futsal está para o futebol como o pingue-pongue está para o ténis: o campo é mais pequeno, as bolas são mais frágeis, as raquetes parecem de brincar, mas mesmo assim há uns maduros que se especializaram naquilo, um país em vias de desenvolvimento determinado a reclamar os feitos deles como espelhos da glória pátria e, enfim, um povo inteiro a arfar como se fazer efeitos em bolas de plástico num pavilhão com uma dúzia de chineses bocejantes nas bancadas fosse o mesmo que preparar um ponto no fundo do court, subir à rede, fazer dois vóleis, cortar um amorti, ganhar o Wimbledon e provocar um sobressalto sensual à rainha perante milhões de espectadores distribuídos pelo mundo inteiro (China incluída). Chega? Não chega.


Portanto, não me venham com cantigas. Ganhar ao Benfica nunca é mau, no futsal como no curling ou na pelota basca. Mas ganhar ao Benfica no futebol não tem comparação com nada – e, portanto, não tem comparação com ganhar ao Benfica no futsal também. De resto, ganhar ao Benfica é capaz de estar um tanto sobrevalorizado, nos dias que correm. Ou muito me engano, ou vão direitinhos, os benfiquistas, pelo mesmo ralo em que fomos no ano passado. Ah, é verdade: agora estou a falar de futebol a sério, não de futsal. Mas quantas vezes é que eu tenho de vos dizer isto? Eu estou-me nas tintas para o futsal.










CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 2 de Julho de 2011


(imagem: © www.visaodemercado.blogspot.com)









tags:
2 comentários:
De M a 6 de Julho de 2011 às 22:56
Bom regresso de férias. A equipa de futsal tem elementos que talvez fizessem uma perninha nas primeiras categorias de futebol do Sporting!
De semprescp a 21 de Julho de 2011 às 16:09
Não concordo. O futsal tem mais arte que o futebol de 11...e olhe que gosto e bastante do futebol de 11.
Ass: Leoa ferrenha do norte

Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
pesquisar neste blog
 
arquivos
livros de ficção

"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
Saber mais


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui