Sábado, 13 de Junho de 2009
publicado por JN em 13/6/09

Uma coisa que sempre me incentivou a continuar a fumar foram as sugestões para que deixasse de fumar. Eu ouvia: “Mas como é possível tu continuares a chupar essa porcaria, se sabes que ela está a dar cabo de ti?” – e só me apetecia fumar mais ainda. É duro receber liçõezinhas de gente ignorante – e quem ache que temos todos a mesma psique, todos o mesmo grau de inclinação para a neurose e todos a mesma facilidade em escapar aos seus placebos é um ignorante. De resto, e tendo tantas vezes invejado a ignorância, que nos põe a salvo de muita coisa, nunca invejei esta gente em particular. Pessoas nervosas, como o são os fumadores, podem estragar tudo com os nervos – mas, por outro lado, gozam os sucessos com muito maior alegria e muito menor cinismo do que os ditos tranquilos, que tanto não sabem o que é a tristeza como o que é a felicidade.

Sempre fui, parece-me, um fumador razoavelmente decente. Fumava um maço por dia (Davidoff Gold, nos últimos anos). Mas tinha de voar durante doze horas e nem por isso precisava de mastigar pastilhas de nicotina. Tinha um jantar num restaurante no smoking e ia na mesma – e, aliás, quando me via sair para fumar, havia sempre alguém mais distante que me perguntava, com ou sem liçãozinha: “Tu fumas?” De forma que, não me sentindo sujo ou mal-cheiroso, precisava de um argumento forte para parar. E esse argumento tinha de ser a longevidade. Não me chegava falarem-me, por exemplo, da recuperação do cheiro. Eu vivo no Bairro Alto, onde toda a gente decidiu entretanto ter cão – o último sentido de que preciso é o cheiro. O mesmo, mais ou menos, com o paladar. À mesa, sou pouco menos do que um sensualista – o penúltimo sentido de que preciso é o gosto.

De forma que há já algum tempo que tinha decidido acabar com isto aos 35 anos, que me parece ser mais ou menos a idade em que hoje em dia se chega à vida adulta – e em que se deve começar a pensar na sua preservação. A não ser que ficasse farto de fumar, como muitos ex-fumadores me dizem que um dia ficaram. Infelizmente, não fiquei: continuei a apreciar o cigarro até ao fim, fumando por gosto metade do meu maço (embora outro tanto por rotina). Agora, com a palavra “enfisema” ressoando na bruma, junta-se a urgência à determinação. Assim como assim, em alguma altura haveria de ser preciso reduzir o desejo (que é, de todas, a principal condição para uma vida equilibrada e longa). E, portanto, eis-me aqui: penso de nicotina no braço, pastilhas de mentol no bolso, mau feitio prontinho a explodir. Partam-me a cabeça se vacilar. Entretanto, e se quiserem ajudar-me, atendam os telefones.

Mas saibam, em qualquer caso, que é com mágoa que me despeço deste companheiro. Comecei a fumar por necessidade: tinha 18 anos, acabara de chegar a Lisboa e precisava urgentemente de um adereço atrás do qual esconder a timidez. Entretanto, porém, fiz desse adereço um amigo. Um amigo que me comia por dentro, sim – mas, por outro lado, são sempre assim os amigos. Um amigo que esteve comigo quando me fiz jornalista, que esteve comigo quando escrevi alguns livros e que continuou a estar comigo quando finalmente percebi que nem uma coisa nem outra me livrariam da morte. Um amigo que me viu casar, descasar e tornar a casar. Um amigo que leu ao meu lado o Balzac e o García Márquez, que viajou ao meu lado por cinco continentes, que foi comigo ao cinema e ao teatro e à música. Um amigo com que me comovi e com que me enojei. Com que me defendi nos debates mais tensos e com que selei os meus melhores discursos. Que fumei para conseguir tolerar as filas de trânsito e que voltei a fumar para celebrar as vitórias do Sporting no campeonato.

Ao longo destes 17 anos, tantos quantos tenho de Lisboa, o cigarro foi sempre melhor do que um psiquiatra – e tantas vezes, aliás, melhor do que uma mulher. Sem ele, eu não teria conseguido viver como vivi até hoje. Não sei se vivi bem ou mal: sei que não teria conseguido viver assim sem o cigarro – e não sei, sinceramente, como vou conseguir viver a partir de agora sem ele. Tanto quanto me diz respeito, o cigarro fazer tão mal é a mais inequívoca prova de que não há Deus. E desde já deixo aqui registado o meu protesto se, não morrendo de cancro no pulmão ou na garganta, eu morrer jovem na mesma, em resultado de outra coisa qualquer. Não só não haverá Deus como, indubitavelmente, o verdadeiro criador do universo será o Diabo.

Sim, é verdade: esta crónica não me saiu com a chama das das últimas semanas. Mas esperavam o quê? Deixei de fumar esta manhã.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 13 de Juho de 2009

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2 comentários:
De Anónimo a 7 de Agosto de 2009 às 09:14
Excelente blogue!
De tresgues a 7 de Agosto de 2009 às 23:57
Excelente, mesmo.
Não conhecia.
Merecido destaque.
Fiquei fã e... (ou mas) ;))) ainda não li tudo!!!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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