Quinta-feira, 16 de Junho de 2011
publicado por JN em 16/6/11

Podem ser doutores e engenheiros, mas muitas vezes são escriturários, trolhas, mesmo engraxadores. Tive um tio-avô que tinha essa qualidade e que manteve essa qualidade mesmo depois de se reformar e de, efectivamente, passar a engraxar sapatos na Praça Velha. Já fiz dele personagem num conto, embora manipulando-lhe as idiossincrasias. O facto é que andava por ali com uma caixa de madeira na mão, dando-se ares de exagerada importância – e que, quando era chamado a uma engraxadela (diz-se “engraxadela?”), não andava, mas desfilava, até finalmente  agachar-se em frente ao cliente, estender um pano de camurça no chão, dispor sobre ele os seus utensílios, endireitar as costas e, então sim, começar o trabalho. Talvez não fosse bem assim. Talvez seja eu quem o recorda dessa maneira, à distância de mais de trinta anos, quase tantos quantos tenho de memória. Talvez David Machado de Sousa fosse mesmo apenas mais um daqueles pobres diabos de cuja simples existência os transeuntes se riam. Mas havia – juro que havia – homens de respeito que se punham sobre ele, com o pé esticado na direcção da sua escova, e em vez do habitual esgar de nojo, como se se preparassem para esmagar uma barata, metiam um ar quase urgente, de quem teme ficar sem o pé, o resto da manhã definitivamente consagrado à procura desesperada da aprovação daquele homem.


De forma que David Machado de Sousa tinha isso que às vezes têm os doutores e os engenheiros, mas outras vezes quem tem são os escriturários, os trolhas, mesmo os engraxadores como ele: a capacidade de cerrar o sobrolho e de imediato ganhar ascendente sobre o homem em frente. Já aqui falei dos méritos da snobeira. Os pobres efectivamente respeitam de outra forma aqueles que conseguem forjar-se snobes. Chamam-lhes “selectos”, os pobres – e de imediato se dispõem a ir com eles até ao fim do mundo, a elegê-los para a Junta e para a Assembleia da República, a descer com eles até às trincheiras. Coisa diferente é esta, porém. O que se desprende destes homens não é altivez. O que se desprende deles é terror. É poder. E eu, inevitavelmente, morro de inveja deles. Morro de inveja deles e, apesar de ter tantas contas a acertar com eles, após meia vida de risota (minha) e de reprovação (deles), dou por mim a assobiar para o lado sempre que tropeço numa fragilidade que possa comprometê-los. O facto é que cultivam quase sempre uma saudável ignorância, os homens que franzem o sobrolho. Para começar, julgam-se mesmo importantes, o que muitas vezes é mais do que suficiente para a morte ao artista. Mas eu duvido que um só deles tenha a prestação do carro em atraso. Sei que nem um só deles se abstém nas eleições. E nunca vi um só deles deixar ir de táxi para casa um familiar que aterre no aeroporto.


Não têm sentido de humor nenhum, esses homens que franzem o sobrolho. Todo o sistema sobre que erguem o equilíbrio das suas vidas é um equívoco delicado e instável, à espera apenas do primeiro sopro do vento. E, porém, a mentira anda demasiado menosprezada, nos dias em que vivemos. Talvez tenha chegado, enfim, o tempo de voltarmos a dar à mentira o seu devido valor. E talvez tenha chegado o tempo de relativizarmos o sentido de humor também. Há-de haver uma altura na nossa vida colectiva, tanto quanto na nossa vida pessoal, em que simplesmente já teremos rido o suficiente por uns tempos. E eu pergunto-me se o tempo não será este: o tempo de nos levarmos enfim a sério, ao contrário do que nos aconselham os cânones oficiais da inteligência e as práticas do cosmopolitismo moderninho. Afinal, andamos agora há décadas à gargalhada: que somos tontos, que o país que construímos é tonto, que a espécie que representamos é tonta e que mais tontos ainda seremos se não nos rirmos da nossa própria tontice, da tontice do país, da tontice da espécie. E o mais provável é que tenha agora chegado a hora de estendermos o nosso paninho de camurça no chão, dispormos sobre ele os utensílios, endireitarmos as costas, deitarmos mãos ao trabalho – e, ao primeiro que se puser com risinhos, cerrarmos o sobrolho, de forma a que se sinta pequenino, apavorado, urgente da nossa aprovação.


Contra mim falo.


Assim como assim, já não temos cá o Bloco de Esquerda. Alguém vai ter de zelar pela decência do ciclo que agora se inicia.










CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 11 de Junho de 2011


(imagem: © www.azeferino.web.simplesnet.pt)









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1 comentário:
De Manuel Carvalho a 17 de Junho de 2011 às 00:41
Os engraxadores continuam figuras de rua, debaixo de sol ou de chuva, sem um sindicato, sem reivindicar direitos e condições de trabalho. Por agora, os engraxadores resistem, são postais para os turistas que lhes pedem fotografias, guardam histórias, olham as pessoas e adivinham-lhes o que lhes vai na alma. Por gosto ou necessidade trabalharam e dizem conhecer o suficiente do mundo. E conhecem. Escurece, a rua à noite não lhes pertence. Acomodam com vagar as ferramentas na caixa, enquanto se despedem com o olhar. Fitam os próprios pés, e os sapatos mal engraxados. Resistem e dizem-se, orgulhosos, os últimos engraxadores de sapatos que ainda resistem principalmente nas cidades de Lisboa e Porto.
Há não muitos anos os engraxadores eram presença constante nas ruas de qualquer cidade portuguesa. Andar com os sapatos bem engraxados fazia parte das regras de boa conduta masculina e, ao contrário dos dias de hoje, poucas eram as pessoas que tratavam dos seus próprios sapatos em casa.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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