Sábado, 4 de Junho de 2011
publicado por JN em 4/6/11

Dizer que a fundação da SATA Air Açores foi uma prova da tenacidade açoriana do pós-Guerra é constatar uma evidência. Creditar à SATA Air Açores uma responsabilidade significativa no desenvolvimento da autonomia açoriana é pecar por defeito. À SATA Air Açores devem os açorianos, em parte, a identificação entre as ilhas. À SATA Air Açores devem os portugueses, em parte, a descoberta dessas ilhas. Mas à SATA Air Açores, ou à sua subsidiária SATA Internacional (ambas empresas públicas, parcialmente sustentadas pelo orçamento regional), devem os açorianos, os portugueses e quem quer que visite os Açores uma colecção expressiva de injustiças – mais expressiva ainda desde que, com o apoio da capital, uma pequena parcela da capacidade dos voos Lisboa-Açores-Lisboa passou a dispor de tarifas reduzidas.


Durante décadas, a SATA Internacional, que tinha, tivera ou teria rotas para a América, a Madeira ou as Canárias, exigiu um gateway para Lisboa. Os açorianos juntaram-se-lhe em coro, porque acreditavam que a concessão desse gateway à companhia regional – que poderia receber os passageiros numa ilha e depois distribuí-los pelas restantes – resultaria numa efectiva concorrência à TAP, levando à redução generalizada dos preços. Ingénua convicção: para ganhar a rota de Ponta Delgada, a SATA não hesitou em coligar-se com a TAP, passando a voar em code-share com ela para as (agora) quatro rotas Lisboa-Açores-Lisboa – e, entretanto, a joint-venture manteve desde o princípio todas as desvantagens de um cartel, sem alguma vez oferecer um só dos benefícios de um verdadeiro code-share.


Ou seja: não só o preço das passagens se manteve escandalosamente alto (grosso modo, entre € 190 e € 390 para um voo entre o continente e as ilhas, dez vezes mais do que aquilo que um português pode gastar para ir a Berlim ou a Dublin), como os direitos adquiridos por um passageiro na relação com uma das companhias se mantêm até hoje por reconhecer pela outra. Exemplo aleatório: um cliente regular da TAP, com cartão de passageiro frequente “Silver” e um saco e golfe entre as malas, tem direito, num voo “code-share (notem-se as aspas) operado pela TAP, a check-in prioritário, 35+5 kg de bagagem, 15 kg extra para o saco desportivo e duas publicações para leitura a bordo; pelo contrário, e se, apesar do “code-share”, a aeronave for SATA, espera sentadinho, tem direito a apenas 20+5 kg de bagagem, precisa de pedir para levar o saco de golfe (o que fica sujeito a aprovação) – e, se quiser ler, pois que leia a revista da companhia.


A situação é injusta há uma década. Paciência. Para um forasteiro, visitar as ilhas não tem preço. Para um local, sair de vez em quando da ilha menos preço ainda tem. Só que, já este ano, Carlos César fez contas ao mandato, decidiu-se por um último brilharete e garantiu que 10% dos lugares de cada avião fossem ocupados por tarifas de € 88, € 99 ou € 146. Pois a medida não tardou a explodir, também ela, na cara dos passageiros: não só conseguir esses bilhetes se verificou um suplício, como (sobretudo) a SATA – e isto mesmo tendo ganho fluxo e facturação com a mudança – passou a usar a “benesse” como argumento emocional. Resultado: se há 25 pessoas a voar a preços reduzidos, então nem uma das 250 que ocupam o avião pode, por exemplo, ultrapassar sequer em 0,5 kg o peso limite da sua bagagem. Por cada quilo, como é de lei, são sete euros – e ainda há dias eu vi um passageiro pagar 10,5 euros depois de lhe ter sido cobrado 1,5 kg de excesso, rigor que nem a TAP tem coragem de praticar.


Os Açores são uma das regiões economicamente mais deprimidas da Europa ocidental. Para muitos passageiros SATA/TAP, dez euros fazem mesmo a diferença – e cem podem ser o fim do mundo. E o que faz a SATA? Vampiriza o erário público, legitima a manutenção das tarifas altas, colecciona novas subvenções, aplica todas as coimas que pode aos passageiros (a bagagem é apenas um dos expedientes desta nova sanha taxatória) – e depois ainda se põe a voar para a Madeira ao preço da chuva. Ah, sim, esquecia-me: esta mesma SATA, sustentada pelo erário público açoriano, voa para o Funchal por € 68. Pois eu só vejo uma solução: o boicote colectivo. Por mim, tão depressa não torno a voar na SATA Internacional. A SATA Internacional, neste momento, é um insulto ao meu povo.









CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 28 de Maio de 2011


(imagem: © www.infraton.i.olhares.com)








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4 comentários:
De Manuel Carvalho a 4 de Junho de 2011 às 18:17
De facto tenho lido na imprensa alguns problemas com a Companhia de Aviação SATA que tem o monopólio nos Açores, falando-se em prejuízo na economia local. por parte de vários operadores turísticos locais, principalmente ao transporte de equipamentos de golfe e de mergulho. Em causa, está a nova taxa aplicada pela transportadora regional sobre o equipamento desportivo, anunciada aos clientes recentemente. No caso do material de mergulho, os passageiros com bagagem até 20 quilos passam a pagar, para além do preço da viagem, uma taxa única de 35 euros, nos voos domésticos, e de 85, caso viajem da Europa ou de África. Já os passageiros que venham dos EUA ou do Canadá pagam 150 euros. Para a Sata ganhar mais uns €€ o Arquipélago perderá alguns milhares.
Os alertas sobre os riscos da medida, que atinge o mergulho e outros desportos radicais, vêm de empresários de todas as ilhas. Fica em clara desvantagem em relação à concorrência de outros destinos internacionais, para onde os turistas conseguem preços mais baratos, como o Mar Vermelho, Golfo do México, América do Sul, Caraíbas ou Gálapagos.
Enfim, mais uma ideia de algum gestor que só sabe fazer contas com máquina de calcular!!
Ao nível de preços de passagens para os naturais locais parece que também a empresa não sabe ou não quer fazer a descriminalização positiva, o que também não se entende.
De Eita Corisco a 7 de Junho de 2011 às 22:33
Os açorianos concordam com tudo isto e não compreendem o que César lhes está a fazer. Denúncias idênticas são feitas há muito tempo no blogue www.maquinadelavax.blogspot.com , o que já causou mal estar na regiao.
De Eita Corisco a 7 de Junho de 2011 às 23:27
http://maquinadelavax.blogspot.com/2009/09/os-acores-reais-sata-e-campanha.html

http://maquinadelavax.blogspot.com/2009/11/rtp-sata-futebois-e-acorianidade.html

http://maquinadelavax.blogspot.com/2011/02/servico-madeirense-de-transporte-aereo.html

http://maquinadelavax.blogspot.com/2009/10/sata-imagine.html

http://maquinadelavax.blogspot.com/2010/12/8850-e-o-resto-e-conversafiada-entre.html

http://maquinadelavax.blogspot.com/2010/12/botas-sata-e-socialismo.html

http://maquinadelavax.blogspot.com/2010/06/carlos-cesar-sata-e-os-100-euros.html

http://maquinadelavax.blogspot.com/2010/04/sata-e-do-ps.html
De Claudia a 28 de Junho de 2011 às 16:39
"um português pode gastar para ir a Berlim ou a Dublin"
Apesar de corroborar tudo o que disse/escreveu, e muito bem, tenho de lembrar, porque nunca é demais....o português das aspas.....é o português continental, o que eu não sou...férias para açorianos são férias de luxo pelo preço que é pago, não pela qualidade que têm!!
Continue a escrever assim... dá gosto!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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