Domingo, 8 de Maio de 2011
publicado por JN em 8/5/11

Em O Discurso do Rei, mais um daqueles filminhos insípidos cuja entronização o superavit de bretões em Hollywood conseguiu fazer passar pelos intervalos da chuva, há apesar de tudo um momento interessante. Recém-coroado, George VI está assistir a um excerto de um discurso de Hitler nas notícias do cinema, quando uma das filhas o questiona sobre o que estará a dizer aquele tipo encolerizado que atira perdigotos à câmara. E ele: “O que está a dizer, não sei, mas parece-me estar a dizê-lo bastante bem.”


Foi disso que, por bonomia, me lembrei logo na segunda-feira de manhã, quando, nos instantes iniciais de numa das primeiras conversas que tive sobre o abate de Osama Bin Laden, alguém se apressou a objectar ao meu triunfalismo: “Não nos esqueçamos de que era um grande líder, que inspirava as massas.” Desde a notícia da morte que eu vinha ouvindo, da parte dos habituais representantes da bem-aventurança, referências à ideia de que as represálias terroristas não tardariam, como se isto não fosse uma guerra e a antecipação dessas represálias devesse ter levado as tropas norte-americanas a pensar duas vezes antes da eliminação.


Mas nem nos momentos de maior boa vontade me passara sequer pela cabeça que a retórica e a capacidade de mobilização de Bin Laden pudessem, após quinze anos de persistentes atentados, com milhares de mortes acumuladas nos cinco continentes, ser elogiadas assim, sem qualquer ressalva posterior, como um dia poderia ter feito o rei de Inglaterra em relação a Hitler, se não se desse o caso de, nesse instante, estar, mais do que a invejar um estadista capaz (ao contrário dele) de dizer duas frases seguidas, a avaliar as armas de um inimigo e a recapitular interiormente o seu próprio arsenal, à procura de antídoto.


E, no entanto, não passava de uma brincadeirinha de crianças, esse primeiro elogio ao carisma de Bin Laden. Chegado a casa, e depois de um dia demasiado comprido para conseguir manter o passo com a actualidade, liguei a televisão para conferir o vox pop e era pior: Bin Laden já não era um assassino, mas um justiceiro, quase um santo. Pensei: “Estás com alucinações, Joel, experimenta mas é a rádio” – e, porém, na rádio era pior ainda, porque quem falavam eram jornalistas e figuras públicas e, se Bin Laden não era um santo, pelo menos Obama era um demónio, o que ia dar quase ao mesmo. Pensei: “Bom, ao menos nas redes sociais não há-de ser assim…” – e, no entanto, no FaceBook era tudo definitivamente terrível: Bin Laden um anjo com asinhas, Obama a encarnação de Belzebu e eu o filho de uma grandessíssima por ter celebrado a morte de um homem sem direito a julgamento nem nada.


Diziam-no cidadãos anónimos e diziam-no, mais uma vez, figuras públicas, provenientes da TV mais tonta e até da própria Assembleia da República – e no fim voltavam a dizê-lo os jornalistas, tanto os de tribuna solitária como aqueles que se reúnem diariamente em fóruns onde vomitam o seu ódio a toda a espécie de ordem, ao mesmo tempo em que se vão lamentando pela ignorância deste povo a quem trazem cultura e filosofia sem que, pobre diabo, ele sequer perceba a importância de assimilá-las. Aparentemente, morreram 3000 pessoas a 11 de Setembro de 2011 porque os EUA tiveram, enfim, o castigo que mereciam – e, se noutros países se perderam igualmente vidas, centenas de vidas, milhares de vidas, então o mais provável é que o tenham merecido também, se, como todos sabemos, tantos e tantos comem diária e impunemente da gamela americana, alimentada pela opressão dos povos árabes.


Acho graça a esta conversa da opressão, porque no período entre duas guerras também era exercida sobre a Alemanha uma certa forma de opressão e foi precisamente daí que nasceu Adölf Hitler. Infelizmente, acabámos por cercá-lo de tal maneira em Berlim, determinados que estávamos a evitar que tivesse um julgamento justo, que, encurralado, o pobre não encontrou outra alternativa serão pôr termo à vida. Foi pena não ter-se permitido chegar aos dias de hoje, para ver o que dele escreveriam os portugueses pensantes – e os jornalistas portugueses em particular – no FaceBook. Ficaria com o coração aconchegadinho, quase de certeza. Vergonha, é o que eu às vezes sinto. A gaiola das loucas – às vezes não passa disso, a minha classe.








CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 7 de Maio de 2011


(imagem: © www.buddyhell.wordpress.com)







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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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