Domingo, 1 de Maio de 2011
publicado por JN em 1/5/11

Um sinal de como vivemos bem na última década? A relação que passámos a cultivar com os dentes e com os dentistas. Velho ou novo, rico ou pobre, metrossexual ou esbragalado: não sei de um único português que não tenha, nos últimos anos, posto a dentadura em obras, feito um orçamento para pôr a dentadura em obras ou pelo menos desenvolvido uma paixão garrettiana pelos seus dentes, dedicando-lhes pastorais e prometendo nunca mais voltar a prestar atenção aos olhos, esses ingratos. A obsessão foi de tal ordem que muitos dentistas, na crista da onda, se davam ao luxo de recusar qualquer tipo de relação com seguros médicos ou com titulares de seguros médicos, argumentando que os dentes são coisa demasiado séria para ser tratada a correr, como aparentemente o impõe o parco rendimento de uma consulta a um segurado da Médis ou da Multicare. E, então, por aí andavam, os portugueses, cada vez mais pobres, mas cada vez com mais estilo: um terço a entregar-se à broca duas vezes por semana, outro terço de aparelho com metal e elásticos nos caninos e um último terço já com dois leds sobrepostos sobre o queixo, à Paulo Portas, solução óptima para identificar ao longe e para nos guiar no caso de faltar a luz.


Chegada a crise, já se sabe, as coisas mudaram um pouco. Na clínica que frequento, o doutor Gonçalo, sempre irritado com seguros e segurados, foi posto a andar – e, numa série de outras, a primeira medida foi ir bater à porta das seguradoras, a ver se ainda havia interesse em convénios. Os dentes continuam uma coisa absolutamente séria, muito mais séria do que o fígado ou o duodeno, mas mais sério ainda do que ambos passou a ser a sobrevivência da classe médica. Acho bem. Por outro lado, não me importava nada que, na sequência deste banho de humildade, viéssemos a aligeirar também a sacralização da dentadura e da nossa relação com ela. Primeiro, porque estou um bocado farto disto de ir almoçar com alguém e, no fim, ter de ficar a assistir ao seu longuíssimo ritual de higiene, no lavatório da zona comum da casa de banho, com as senhoras desviando o olhar e eu ali em pé, sem saber muito bem onde enfiar-me e a distribuir sorrisos amarelos, como quem diz: “Tenham paciência, minhas senhoras. O coitado está doente.” Depois, porque me parece que, apesar de tudo, talvez valha a pena estarmos atentos a ameaças de outras proveniências também. É tal a nossa obsessão com os dentes que, qualquer dia, cruzamo-nos com na rua com uma pessoa a esvair-se em sangue, fazemos-lhe um rápido exame às gengivas e suspiramos aliviados: “Dos dentes não é, por isso não deve ser grave.”


Aqui há umas semanas, tive uma gengivite e precisei de fazer uma destartarização, técnica ainda não há muito anos considerada pouco mais do que um capricho new age. Pois vim para casa com um saco de apetrechos e literatura adicional – e depois ainda tive de passar na farmácia, a comprar mais uma série de coisas e a ouvir mais uma data de conselhos. Por esta altura, qualquer pequena refeição que eu faça é seguida de uma autêntica odisseia. Primeiro, massajo as gengivas, pacientemente, prolongadamente. Depois, escovo os dentes, dez segundos por cada grupo de três, sempre com a preocupação de ir até à raiz de cada um. Depois ainda passo-lhes não o fio, mas uma fita dental, mais resistente. Logo a seguir, complemento com um escovilhão (sim, um escovilhão), escarafunchando para cá e para lá. Acto contínuo, gargarejo tudo com Tantum Verde, sorrindo – e, no final, ponho-me ali a olhar para os dentes através do espelho, um a um, desejando-lhes boas noites e declarando-lhes o meu amor incondicional: “Agora tenho de apagar a luz, meus queridos. Não se esqueçam das orações. Peçam por vós e pelo vosso falecido irmãozinho, que fazia anos para a semana.”


Estou a pensar abandonar isto das crónicas e dedicar-me a tempo inteiro à limpeza da dentadura. O meu objectivo é, mesmo morrendo jovem, morrer com uns dentes lindíssimos. E, quando hoje alguém me diz que, como eu fiz durante tantos anos, apenas escova os dentes três vezes ao dia, duas se sair de casa para trabalhar e houver esquecido a escova, só me apetece mandar parar a banda sonora e atirar: “Pobre diabo. Tu precisas de ajuda, pá!” Agora, sim, sou um homem com uma missão.








CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 30 de Abril de 2011


(imagem: © en.wikipedia.org)







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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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