Domingo, 24 de Abril de 2011
publicado por JN em 24/4/11

Às vezes gostava de ter o contrato que o Bruno Nogueira tem com a TSF. Dava-me a preguiça, apetecia-me ir para a praia ou simplesmente não me saía nada de jeito e, pronto, aqui vai disto: punha uma canção pimba, abria com um pivô inicial a dizer qualquer coisa como: “Já aqui passei muita canção pimba, mas esta é a mais pimba de todas” – e ala para a Costa da Caparica. Infelizmente, nem isto é a rádio nem eu sou o Bruno Nogueira (coisa que, aliás, nos orgulhará a ambos em igual medida). Se há uma crónica para entregar, então há uma crónica para escrever. E, se há uma crónica para escrever, então o melhor é que escrevê-la custe o mais possível. Com esta cruz se debate todos os dias um tipo que nasceu protestante, tenha ou não alguma vez acreditado na Omnipotência: com a firme convicção – e mesmo que tudo em redor prove racionalmente o contrário – de que, se não dói, não presta.


Haja saúde.


Hoje não tenho crónica. Ando a correr há um mês por causa do lançamento do novo livro, advento por coincidência simultâneo com um pico de trabalho quase épico, e agora aqui estou, com uma dor de cabeça monumental, uma tosse que não se pode e uma vontade imensa de fechar os olhos, a contemplar esta página em branco como um equídeo contempla o tipo que quer montá-lo: contrariado como o diabo, mas ainda assim consciente de que deixar-se montar foi a única razão para a sobrevivência da sua raça. Na pastinha “Ideias” tenho, por esta altura, 192 ficheiros: crónicas inacabadas mas acabáveis, anotações já estruturadas em princípio, meio e fim, pistas para desenvolver mais ao estilo escrita automática. É muito raro, hoje em dia, escrever uma crónica que não tenha sido antes pensada e pelo menos vagamente discutida, em colóquio, solilóquio ou provocação ao vento. Mais raro do que isso só chegar ao final da tarde de domingo e não conseguir concretizar. Nem sobre os 192 assuntos em maturação, nem sobre outra coisa qualquer.


Desde as dez da manhã, esbocei pelo menos um parágrafo sobre as mulheres que fazem beicinho e os trolhas comprimidos nos furgões que vogam pelas auto-estradas à sexta-feira à tarde, os maridos de grávidas que até enjoos sentem e os homens que põem casacos pelos ombros, os óculos escuros, o Nuno Markl e a incapacidade de sacralizar. Às mulheres que fazem beicinho, atirei dois insultos e depois fiquei sem nada para dizer. Aos homens que engravidam tanto quanto a esposa, dei três pontapés na boca e depois tive pena. Dos trolhas, descobri que, em dias assim, também não tenho outra coisa senão pena, o que é fraco argumento para uma crónica completa – e, quanto aos homens que põem o casaco pelos ombros, pois talvez não passem de uma espécie de versão engravatada dos trolhas do furgão. Sobre os óculos escuros, que gostava um dia de declarar como a maior pinderiquice dos séculos XX e XXI, descobri-me afinal com apenas uma coisa para dizer: “Declaro que os óculos escuros são a maior pinderiquice dos séculos XX e XXI.” Do Nuno Markl, sei que queria falar mal, mas já nem lembro a propósito do quê – e, agora que penso nisso, não faço ideia nenhuma do que signifique “Incapacidade de Sacralizar”, ficheiro que suicidamente se limita às três palavras que traz no título.


De alguns dos grandes cronistas do passado se disse, em jeito de supremo elogio: “Era melhor ainda quando não tinha assunto.” É algo que eu adoraria ouvir um dia sobre mim próprio, mas apenas para sentir-me consagrado no cânone. Na verdade, não há qualquer hipótese de eu ser melhor não tendo assunto, até porque não há qualquer hipótese de eu não ter assunto. Há quinze anos que me venho munindo de assuntos e de argumentos sobre esses assuntos e de retórica para defender esses argumentos. Por outro lado, e se de repente houver o risco de me faltar o tema, é mais forte do que eu: em cinco minutos já tenho todo um debate sistematizado, independentemente do objecto desse debate e do lado da barricada onde me houver acantonado. E, porém, um dia haverá em que simplesmente não conseguirei escrever, mesmo tendo sobre o que escrever (e, aliás, o que escrever sobre isso). E o pior é que esse dia é hoje.


Olhem: estou a pensar colar-me ao Nelson Rodrigues e fazer de Nuno Markl o meu Dr. Alceu, para dele me ocupar nos dia de desinspiração. Alguém se opõe?







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 23 de Abril de 2011


(imagem: © www.hammer.eu)






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1 comentário:
De jorge espinha a 1 de Maio de 2011 às 14:15
Caro Joel


Permita-me que lhe sugira um tema. A Inveja. Mas abordada por um ângulo diferente do habitual, ela existe de facto, mas não terá em Portugal as costas excessivamente largas? Sempre que se critica algo ou alguém , ou quase sempre, lá sai a acusação da inveja. É um recurso usado por muitos para matar o debate , acusa-se alguém de invejoso e pronto....

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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