Domingo, 17 de Abril de 2011
publicado por JN em 17/4/11

Já se sabe: não gosto do Benfica. Tenho com o Benfica uma espécie de tensão freudiana, ainda por cima de resultado intercalar claramente em meu desfavor – e, para além de tudo, pago a renda com recurso bastas vezes a matérias do domínio da estética, o que não poderia nunca beneficiar a relação. Para mim, o Benfica é um clube feio, boçal e desinteressante. Representa uma maioria clara, o que do ponto de vista filosófico é um tédio, e ademais está cheio de adeptos desdentados, que bebem pelo garrafão e tratam a patroa por isso mesmo: por “patroa”. Todos os bullyers da minha escola, uns rufias mesquinhos que ainda hoje provavelmente só à chapada, eram do Benfica. Por outro lado, o meu pai, com quem tive a honra de partilhar algumas das mais poéticas derrotas da história do pontapé-na-bola, nunca quis nada com tal obscurantismo. Na verdade, só estas duas razões chegavam para que eu detestasse o Benfica. Ao velho doutor Segismundo, a quem não escapou quase nada, escapou ainda assim isto: o Complexo de Édipo pode ser o diabo, mas o Complexo de Mats Magnusson é bem pior.


E, no entanto, ainda no outro dia, ao cruzar-me com o resumo de um jogo entre o Benfica e o PSV Eindhoven, esse mesmo que, numa certa noite da Primavera de 1988, me deu a alegria de estragar o jantar ao Veloso, absolvendo-me metade da adolescência, dei por mim todo enternecido com os golos do Sálvio e do Saviola. Digo enternecido, mas não era bem isso: era emocionado mesmo. Em plena noite de insónia, vi o resumo do FC Porto, aqueles cinco disparos inapeláveis que praticamente mandavam o Spartak de Moscovo embora, e surpreendi-me feliz, apesar de tantas vezes torcer pelo FC Porto (em todos os jogos contra o Benfica, isto é). Depois vi o resumo do Benfica e continuei contentíssimo, ao arrepio de todo o desdém (que digo eu, de todo o ódio) exercitado durante metade da vida – e, quando finalmente assisti ao do Sp. Braga, o mesmo  clube de que há uns anos eu disse não ter adeptos, conquistando uns amigos que ainda hoje não perdem uma oportunidade de prometer-me trabalhinhos de, digamos, ortodôncia espontânea, já nem era um resumo que eu via, mas um jogo em directo mesmo, todo eu pontapés na mobília e golpes de cabeça à Villas-Boas e gritaria a pedir a expulsão do Shevchenko, esse grandessíssimo, mas quem é que ele pensa que é.


E, quando enfim acabaram os resumos, eu não suspirava mais pelo sono: suspirava por uma banda filarmónica, uma bandeira verde-rubra drapejando à janela e a mesma malta com que vi o Euro 2004 e o Mundial de 2006 ali mesmo , ao meu lado, cantando comigo: “Às armas! Às armas!” Porque, de repente, essa coisa das “equipas portuguesas” defrontando “as equipas estrangeiras” insurgia-se como algo superlativo. Porque mesmo eu, tão pouco dado a patriotismos imediatos, me sentia de súbito urgente de brio nacional, tantos e tão duros são os insultos que nos vemos obrigados a dirigir-nos a nós próprios, nestes tempos de resgates e ralhetes. E porque em mais nada (e isto independentemente do desfecho da dita ronda da Liga Europa, concluída já depois de escrito este texto) somos tão bons como no futebol, com triunfos individuais e colectivos, com brilharetes clubísticos e nacionais não apenas desproporcionados quanto à nossa dimensão, mas suficientes mesmo para proporcionar-nos um lugar entre a elite global.


Vai acabar, isto. Dizemo-lo em jeito de ameaça, mas é verdade: as crianças portuguesas já não jogam futebol na rua, os nossos vagos candidatos a futebolistas já não têm qualquer intimidade com a bola, por vontade dos treinadores já não havia um só jogador lusitano a partir do escalão de iniciados, os seleccionadores nacionais das próximas gerações já não têm outro remédio senão ir buscar suplentes ao Fátima e ao Ribeirão para poder compor uma vaga lista de convocáveis – e, em quanto mais etapas desse processo avançamos, mais o rigor táctico se vai tornando essencial para disfarçar a ausência de capacidade técnica. Pois talvez esta crise seja mesmo uma oportunidade, como parece que insinua a tal letrinha chinesa. Dizia Jorge Valdano, campeão do mundo com uma Argentina levada ao colo por um pé-descalço de Villa Fiorito: “A pobreza nunca foi boa para nada. A não ser, talvez, para o futebol.” Quem sabe, então, se os miúdos não voltam agora a jogar futebol. Nem que seja apenas para me fazer a vontade. Mas alguém tem ideia do quão difícil é engendrar crónicas optimistas numa altura destas?







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 16 de Abril de 2011


(imagem: © www.somosbenfica.blogspot.com)







 

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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