Domingo, 10 de Abril de 2011
publicado por JN em 10/4/11

Mais velho, escrevo com cada vez maior frequência sobre as coisas que me comovem – e em quase todas elas, percebo-o agora, se conjugam factores recorrentes: uma adversidade das grandes, um homem tentando fazer-lhe face com recurso em exclusivo à vontade indómita e, no fim, uma vaga aparência de dignidade que, apesar disso (de ser vaga e de ser uma aparência), chega para oferecer ao resistente a hipótese de acreditar nela. Nada a fazer: tudo o que me importa é a memória, a sua sistemática tanto quanto a sua aquisição – e a massa de que sou feito, de que fui feito, de que serei para sempre feito apesar dos golpes de sorte e dos acidentes, tem necessariamente de vir ter a estas crónicas. Ainda há instantes, enquanto ponderava sobre o que escreveria hoje, recompus o ficheiro com notas para um texto sobre garrafas termus (sobre os homens que levam garrafas termus para o trabalho, a comida que esses homens tiram de dentro das suas garrafas termus, o sítio onde abrem as suas garrafas termus e a pose que mantêm enquanto o fazem) com o qual espero aborrecer-vos um dia – e, se há uma crónica que ainda não consegui escrever, mas nem por isso desisti de fazê-lo, é essa em que um homem pega numa esferográfica estampada com o símbolo da sua padaria, a ergue no ar e, com a mesma solenidade com que um dia Artur devolveu a Excalibur à Dama do Lago, a estende ao doutor que lá compra as carcaças de manhã: “Tome. Ofereço-lhe.”


Entretanto, e logo abaixo dessas coisas que me abrem a torneira das emoções (vocês sabem: um homem com uma gravatinha de napa dando-se ares de importância, outro cujo carro avaria na ponte num domingo de Verão, outro ainda que mete dez euros de gasolina a um sábado de manhã), há um número igualmente crescente de coisas que apenas me banham de ternura – e provavelmente nenhuma delas me banhará tanto (eis, enfim, o que eu queria dizer) como uma família que, em plena tarde de domingo, entra na Decatlhon e debate em alta voz os novos modelos de corta-ventos “da Quechua” ou irrompe pela SportZone dentro e se põe a discorrer aos gritos sobre os prós e os contras de cada polar “da Berg”. Há um tom na forma como se diz aquelas palavras, “da Quechua” (“da Quéchua”, à estrangeira) e “da Berg”, que é, na verdade, quase toda a literatura que me interessa. Porque há ali a ânsia de dignificar – melhor: de elitizar – as pobres marcas a que se consegue chegar. Mas, principalmente, porque tudo, naquelas pessoas, rescende a família. Tudo nelas rescende a convenções familiares, a cumplicidades familiares, a rotinas familiares – e ouvi-las debater os corta-ventos “da Quechua” e os polares “da Berg” é como entrar de repente na sua sala de estar à hora do jantar e perceber, impotente, que o que há ali é amor mesmo, a família inteira como uma fortaleza, minando aos bocadinhos, até enfim apropriar-se dela, a ordem sobre a qual se construiu este infeliz mundo.


Ver as pessoas tentando ser felizes – aí está, quase de certeza, o melhor do mundo. E, entretanto, sobre essa fundação se erguerão muito mais facilmente as ameias de que agora vamos precisar. Tendemos a esquecer-nos da família (nós, os auto-instituídos moderninhos, os auto-proclamados urbanos). Motivados por imperativos filosóficos que a estatística não tem feito outra coisa senão comprovar, convencemo-nos de que um certo cepticismo cínico permanece a atitude mais inteligente a ter – e, no fim, já nem nos ocorre o potencial mobilizador do afago de um patriarca, do sorriso optimista de uma mãe, do abraço cúmplice de um irmão. Lembramo-nos que os corta-ventos e os polares de marca branca se compram às vezes por não mais de cinco ou dez euros, compensando com o facto de serem quase dados a sua imensa falibilidade, mas raras vezes nos recordamos exactamente do tom em que devem dizer-se aquelas palavras, “da Quechua” e “da Berg”. Nele se concentra a memória toda – e a memória, se não o foi sempre, é agora a única alternativa que temos à esquizofrenia. Neste ponto nos deixaram 37 anos de democracia, 25 de subsídios e quase 600 de globalidade: a caminho novamente da mesa de jantar da infância.







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 9 de Abril de 2011


(imagem: © Joel Neto)







 

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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