Sábado, 26 de Março de 2011
publicado por JN em 26/3/11

Se me pedissem para descrever racionalmente a Terra Chã, a personagem destas crónicas sobre que mais perguntas recebo, o mais provável é que eu próprio me decepcionasse com a descrição. Outrora um importante centro produtor de laranja, de que chegou a abastecer a Inglaterra vitoriana, a Terra Chã declinou a partir dos finais do século XIX, em resultado de uma das muitas pragas que assolaram os Açores (e a Terceira em particular): a mosca da fruta. Desde então, quase todos os solavancos da História contribuíram para reforçar o seu papel de subúrbio de Angra do Heroísmo, cidade que ali veio a instalar, após o violento sismo que em 1980 desalojou dezenas de milhar de pessoas, o seu maior (e, inevitavelmente, mais problemático) bairro social. Quem hoje visita a Terra Chã encanta-se com as quintas belíssimas, mas desencanta-se provavelmente com outras coisas: com a pobreza e com a atmosfera um tanto tristonha, com a falta de vistas para o mar, com a modesto brio das festas populares e com uma certa diluição da identidade – e depois ainda se chateia com o trânsito, que passa louco para cima e para baixo, na impunidade típica dos “caíns” (“caíns” de Caim, o instrumento a que Deus recorreu para matar Abel, de forma a que se cumprisse o seu plano), que é como, muito sintomaticamente, os terceirenses chamam aos seus “mitras”.


Mas essa seria apenas a descrição racional. Na verdade, tudo na Terra Chã se encontra, para mim, no domínio das emoções. Na Terra Chã cresci e fiz os meus primeiros amigos. Na Terra Chã aprendi a ler e perdi a virgindade. Na Terra Chã apanhei castanhas e levei as minhas primeiras galhetas (ou “bolachas, como se diz na Terceira). Na Terra Chã me despedi dos meus avós e nela, afortunadamente, ainda vivem os meus pais. Suponho que não haja – a não ser talvez nalguns recantos da Canada da Francesa ou da Canada do Ti Bento, apenas recentemente desenvolvidas como zonas residenciais – um só pedaço da Terra Chã onde eu não tenha sido feliz. Ainda hoje, quando volto à Terra Chã, faço questão de passar por todos e cada um dos meus santuários de infância: a mercearia da Mercês, o ringue da Casa do Povo e o relvão do Departamento de Ciências Agrárias; o portão verde para que chutávamos pontapés à meia volta, a Canada do Rolo onde fazíamos corridas de bicicleta e os pastos onde apascentei vacas com José Guilherme; o salão da Sociedade Filarmónica, o miradouro do Charcão e as Guerrilhas, baptizadas em honra do papel do morgado no processo liberal, cuja constituição Mouzinho da Silveira redigiu precisamente na Terceira.


De todas as grandes tiradas da história da Filosofia, pois, aquela que eu mais deploro, hoje em dia, é essa do “cidadão do mundo”, com que tanto gostamos de encher a boca até que, enfim, alguém nos reconheça globetrotters, portadores de cartão de crédito e representantes da nova burguesia do resort de quatro estrelas e da máquina fotográfica digital. Porque ser de todo o lado não pode significar outra coisa senão que não se é de lado nenhum. E porque não pode haver nada mais triste do que não ter uma terra. Dois mil e quinhentos anos depois, o mundo não é já o de Sócrates, feito de meia dúzia de cidades e dúzia e meia de aldeias piscatórias aninhadas ao sol do Mediterrâneo. Pelo contrário: dois mil e quinhentos anos depois de Sócrates, a mundividência é, antes de tudo o mais, a capacidade de cultivar raízes. De ser de algum lado, se possível até do lado de onde verdadeiramente se é. E, pelo menos enquanto um só velho da Terra Chã se lembrar de mim, eu serei da Terra Chã. Quando, enfim, tiverem todos morrido, e com eles a memória desses gloriosos tempos de bicicletas e bichos-da-seda, então talvez eu passe a ser do mundo inteiro. Mas, em todo o caso, tentarei evitá-lo.


É por isso que, com vossa licença, não há crónica para a semana. Estarei na Terra Chã, à varanda da velha casa dos avós, olhando os santuários da minha infância e esperando que, nalguma janela em volta, se mova uma cortina, agitada por um velho que se deu conta do meu regresso.







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 27 de Março de 2011


(imagem: © Joel Neto)






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3 comentários:
De Silva Carvalho a 27 de Março de 2011 às 11:41
Pesquisando na internet vários sites da freguesia da Terra Chã, verifica-se que o escritor e jornalista Joel Neto figura como uma das personalidades bastante conhecida do lugar, sua querida terra natal, a par de por ex. pelo antigo pároco da freguesia (entre 1919 e Junho de 1958) António de Ávila Sabino, Francisco Ferreira dos Santos, (o Ferreirinha das Bicas), improvisador popular, Fernando da Rocha, magistrado e político, João Moniz Corte Real, militar e líder miguelista na Ilha Terceira durante a autêntica guerra civil portuguesa (1828-1834) ou Roberto Luís de Mesquita Pimental, político e intelectual.
Não me quer alongar mais neste singelo comentário, dado que também, e infelizmente, nunca fui aos Açores (quando casei em 1973, passei a minha Lua de Mel na Ilha da Madeira que a visitei de ponta à ponta e muito apreciei) e desejar que tudo corra bem com mais esta escapadinha que o escriba faz várias vezes ao ano.
Nota – na década de 80, a minha esposa e filha visitaram os Açores, numa altura em que não conseguimos conciliar as férias, quando ambos trabalhávamos na Caixa Geral de Depósito. Pelo o que me contaram, os Açores são ainda de paisagens mais espectaculares!
De Azoriana a 28 de Março de 2011 às 10:28
Então aproveite e dê um "saltinho" à Serreta, à boquinha da noite seguinte ao dia de petas, para presenciar a minha primeira alegria de lançar o meu primeiro livro, como se fosse um quarto filho. Tenho muito gosto que lá apareça, uma vez que também sou, ainda, originária da freguesia que, aos poucos, perde os que se recordam de mim, tal como acontece com todos os que ganham mais cabelos brancos...
Está convidado.
Abraço
De Anónimo a 31 de Março de 2011 às 14:13
O texto está soberbamente escrito! De tal forma que consigo ver-me na infância de novo, nos meus lugares, nas minhas brincadeiras e correrias, nas minhas descobertas e experiências! E se sempre me causou alguma estranheza o facto de os mais velhos recorrentemente se referirem aos "seus tempos" como os melhores, devo admitir que também eu estou absolutamente convencida que cresci de forma saudável, viva, alegre e de tal forma feliz que não será possível a nenhuma criança "deste tempo" vivenciar a infância como nós, "naquele tempo", o fizemos.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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