Sábado, 19 de Março de 2011
publicado por JN em 19/3/11

Há nisto da construção da personagem solavancos, reviravoltas, correcções de trajectória. Às vezes, e tanto quanto confunde os outros, uma pessoa confunde-se a si própria com a pele que foi vestindo. Aqui parece-lhe que se afunda de novo no lodaçal de convenções e ressentimentos transportados da adolescência – e então recupera o esforço por adestrar-se, munir-se, relativizar-se. Ali alarma-se porque perdeu o rasto ao rapaz que foi e ainda devia ser – e então parte em busca das suas perplexidades, das suas indignações, da sua força. Nada disso é muito importante: crescer em público não se fez nunca de outra maneira. No fim, restam as raríssimas questões filosóficas mesmo sérias. Uma, como insistia Camus, é o suicídio. E a outra, se existe mesmo mais alguma, é o amor ao chocolate preto.


Esteja em fase mais urbana ou mais rural, a existir sem fazer nada na Terra Chã ou a correr como uma barata tonta em Lisboa, com os nervos em franja ou tão tranquilo como se houvesse caído em pequenino num caldeirão de Xanax – há uma coisa que eu não perceberei nunca, e essa coisa é o amor ao chocolate preto. Quer dizer, perceber até percebo: percebo que não existe. Na verdade, todo aquele que diz gostar de chocolate preto mente. Isso já eu tenho bem resolvido. E, no entanto, permanece a pergunta: porque mente o suposto adorador de chocolate preto, dizendo adorar chocolate preto? O que tem, afinal, o chocolate preto, a não ser o azedume intrínseco, os embrulhos sombrios e o esgar de desconsolo que uma pessoa dá por si a fazer quando, sem mais por onde escapar, lhe afinfa um canino?


Eis o que me inquieta. Se querem que vos diga, e embora em dois parágrafos apenas eu tenha já esgotado a quota de laracha que a direcção desta revista me atribuíra para 2011, é bem possível que as pessoas possam mesmo dividir-se em dois grupos apenas: as que dizem gostar de chocolate preto e as que assumem, sem complexos, que o chocolate, para ser chocolate, é de leite, igualzinho ao da infância, igualzinho àqueles que provávamos em dias de tourada, igualzinho àquele que nos traziam tios emigrados em paragens distantes, igualzinho àqueles que comíamos quando éramos apenas felizes e não estávamos a seduzir ninguém e muito menos reduzíramos à aceitação numa espécie de irmandade do auto-domínio, da penitência e do mau gosto em geral tudo aquilo que um dia pretendêramos da vida.


Às vezes ouço falar de uma nova loja de chocolates, coisa de marca, vinda de Barcelona ou de Nova Iorque. Fico excitadíssimo, cedo arranjo uma desculpa para me infiltrar no shopping em causa, que preciso de ir comprar brocas para o berbequim ou que saiu um novo plasma da Sony ou até que estou ansiosíssimo para começar a ler a última tradução do Musil – e quando vou a ver, afinal, é tudo chocolate preto. E, se é aromatizado, é pior: é chocolate preto a saber a rosas, a pimenta da Jamaica, a endívias (juro: a endívias). Então, aproximo-me do pratinho de plástico com pequenos amuse-bouches para a prova e fico ali a olhar descorçoado, como uma criança a quem rebentaram o balão. Depois chega um tipo todo betinho, atrelado a uma namorada que já o arrastou pelas Zaras todas e agora ainda o arrastou para ali – e eu quase posso jurar que tanto me olha suplicante o rapaz, quando ela lhe enfia pela goela abaixo três bombons, como me olha suplicante ela própria, enquanto se dirige para a prateleira e cumpre o seu dever de mulher comprando duas barras de chocolate preto.


O meu lado rural e grunho vê uma barra de chocolate preto e logo dá por si urgente de chamar-lhe “uma tremenda paneleirice”. Depois vem o meu lado urbano e polido e fica ali a olhar para o lado grunho, decepcionado: “Paneleirice nenhuma. Andamos é todos obcecados com a ideia da profilaxia – e a origem dessa angústia é um mistério importante.” E, contudo, é tão mais simples do que isso. As pessoas que a si própria se persuadem a gostar de chocolate preto simplesmente não tiveram infância. E, em dias como estes, feitos de terramotos e de tsunamis e de acidentes nucleares e de moções de censura, isso não chega sequer a configurar uma tragédia. É só triste







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 19 de Março de 2011


(imagem: © www.feedsee.com)






tags:
3 comentários:
De Silva Carvalho a 21 de Março de 2011 às 00:07
De facto, 9 ou 10 gramas de chocolate por dia representa a quantidade ideal para um efeito protector e prevenção de doença cardiovascular.
Este é um novo efeito benigno do chocolate, demonstrado pela primeira vez num estudo populacional elaborado pelos laboratórios de Pesquisa e Investigação da Universidade Católica de Campobasso , em colaboração com o Instituto Nacional de Cancro de Milão.
Os resultados, publicados numa das edições do Jornal de Nutrição, (a publicação oficial da Sociedade Americana de Nutrição), foram oriundos de um dos maiores estudos epidemiológicos jamais realizados na Europa, o “Projecto Moli-sani ”, que envolveu mais de 20.000 habitantes da região de italiana de Molise . Através do estudo dos participantes recrutados, os investigadores incidiram sobre o complexo mecanismo do acidente vascular cerebral AVC ), devido, em geral a um enfarte do miocárdio. Manter o processo de inflamação sob controlo tornou-se um dos principais focos de interesse para vários programas de prevenção e a conhecida proteína c-reativa " acabou por se mostrar um dos mais promissores marcadores para o tornar possível, sendo detectável através de uma simples análise de sangue.
A equipa italiana relatou os níveis desta proteína no sangue das pessoas examinadas com seu consumo usual de chocolate preto.
A quantidade de chocolate é crítica. Estamos a falar de um consumo moderado. O melhor efeito para a saúde é obtido por consumir uma quantidade média de 9 a 10 gramas de chocolate por dia, correspondente a um pequeno quadrado de chocolate duas ou três vezes por semana. Para além destes montantes, os efeitos benéficos para a saúde podem desaparecer É tal qual como o "receitado" copinho de vinho tinto à refeição. O exagero sabe-se ao que corresponderá.
O amor ao chocolate preto tanto se pode exultar na Terra Chã ou em Lisboa, em pleno Bairro Alto!

De tresgues a 25 de Março de 2011 às 00:13
Ora sabendo eu dos estudos acima mencinados, eis que acabo de ler esta crónica no preciso momento em que acabo de comer uma pequena barra de chocolate preto recheada de frutos secos. E de lamber os dedos.
Nada adepta de medicamentos, este, até me dá um certo prazer.
Se não gosto dos outros chocolates? Gosto, gosto. Daqueles bons, mesmo bons. Mas isto é como tudo. A pessoa em se habituando ... já acha que os outros são demasiado enjoativos. ;(
PS: Também sou adepta do medicamento (tinto) num pequeno copo, à hora do almoço. A pessoa habitua-se quando vê que não lhe faz mal. Antes pelo contrário.
De jorge espinha a 7 de Abril de 2011 às 13:33
Caro Joel

Algumas palavras sinónimo de paraíso: chocolate de leite Code'or . Não , não é snobismo nem querer sr diferente, provei esse chocolate à uns 4-5 anos e nunca mais olhei para trás . Sublime, com amendoas caramelizadas é ainda melhor!
Gosto do sabor amargo associado ao chocolate quando bebo chocolate quente, chocolate quente com um travo a amargo e por isso tem de ser negro pelo menos em parte é muito bom , demasiado doce perde a graça.
Felicidades pela terra chã.

Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
pesquisar neste blog
 
arquivos
livros de ficção

"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
Saber mais


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui