Sábado, 6 de Junho de 2009
publicado por JN em 6/6/09

Das muitas conversas a que eu gostava de ter um dia assistido, aquela durante a qual Ana Malhoa decidiu esforçar-se por ficar “mais sexy” é provavelmente a que mais me custa ter perdido. Sim, eu gostava de ter estado na Sala Oval no dia em que Truman pegou no telefone e ordenou: “Vamos a isso, general, uma em Hiroshima e outra em Nagasaki, depois diga qualquer coisa sobre como correu.” Sim, eu gostava de ter estado na prisão de Antenas quando Sócrates (o autêntico, não este) olhou para a garrafa e suspirou, com um esgar de repulsa: “Essa zurrapa não bebo eu, que me dá cabo dos intestinos – prefiro morrer pela vida justa e a bem da Pólis.” Sim, eu gostava de ter estado na Capela Sistina no momento em que Júlio II a espreitou pela primeira vez e exclamou: “Que diabo é isto, senhor Buonarroti, está ali um homem nu! ‘Diabo’, não, caramba... Cruz credo, ‘caramba’ também não – acudi-me, Senhor, que este pintor maluco até disléxico me deixou!”

E, no entanto, agora que percorro os quiosques de Lisboa e não encontro outra coisa senão Ana Malhoa pousando para a Playboy, Ana Malhoa dando entrevistas sobre o facto de ter pousado para a Playboy e Ana Malhoa parecendo ameaçar-nos de que, se voltamos a esquecer-nos dela, pousa para a Playboy outra vez – agora, mais do que qualquer outra conversa, eu gostava de ter assistido àquela que mudou a vida da miúda. Assim, só posso especular. Mas, de qualquer maneira, é possível reconstituir alguma coisa. Primeiro: o interlocutor foi de certeza o pai, José Malhoa (não o autêntico, este), também dado a cantorias – e igualmente adepto das medidas drásticas, como provam a sua evolução de baladas inofensivas como “Cara de cigana, doce apaixonada…” para marchas épicas como “Aperta, aperta com ela!” a partir do momento em que percebeu que o que lhe faltava era um nadinha de brejeirice. Segundo: essa conversa não ocorreu apenas uma vez – tem ocorrido repetidamente, de cinco em cinco anos, ou mesmo de dois em dois, consoante o tempo que as revistas “da especialidade” levam a passar de um protagonista a outro.

Resultado: esta mulher de 29 anos que o silicone e o botox e as tatuagens e os músculos transformaram numa mulher de 48 anos a fazer um esforço por parecer que tem 43. É como se, perante a suspeita de que precisava de tomar uma aspirina para ficar mais sexy, Ana Malhoa tivesse tomado de imediato uma caixa inteira – e, perante a notícia subsequente de que agora, se calhar, já ia bem mais uma caixinha, tivesse entrado na farmácia e, qual monstro das aspirinas, engolido duas prateleiras de uma vez só. Contas feitas, o seu ensaio fotográfico para a Playboy é um pequeno freak show. E preocupa-me o que será dela agora. Se vivesse no Senegal, e sendo cantora, talvez arranjasse emprego numa embaixada. Por aqui, e tratando-se este de um país que (valha-nos isso) gosta de docinhos como Diana Chaves ou Mariana Monteiro, com as suas barriguinhas imperfeitas e os seus delicados sulquinhos no rosto, não lhe encontro outra alternativa senão o varão. Assim como assim, e de acordo com o que já todos sabemos, como cantora é que não vai lá – e a imortalidade oferecida pelo estatuto de capa da Playboy, pelo andar da carruagem, já não será mais o que um dia foi.

Mas é curioso conferir, em todo o caso, o que traz uma cachopa da TV para miúdos até aqui em pouco mais de dez anos. Quer dizer: aos 16 anos, Ana Malhoa era linda; aos 18, e tendo-se a cobiça tornado oficialmente legal, era sexy; aos 20, e como Herman José já nos havia destravado a língua a todos, era boa. Tanto quanto consigo lembrar-me, tratava-se de um recorde nacional: nenhuma outra portuguesa conseguira colocar o seu nome em tantas categorias do desejo público em apenas duas décadas de vida. Problema: Ana Malhoa queria ser cantora – e de repente deu por si a vender muito menos discos do que esperava, apesar da elegância de versos como “Faz o que quiseres de mim/ Deixa a tua marca no meu corpo/ Dá-me tudo que tu tens para dar/ Até ao fim.” Resultado: decidiu virar “ainda mais linda”, “ainda mais sexy” e “ainda mais boa”. E, na impossibilidade de explicar-lhe que “menos é mais”, máxima que claramente não chegaria a perceber, alguém devia agora dizer-lhe que a sensualidade é precisamente aquilo que se adivinha sem se ver. Porque aquela rapariga vai rebentar. E eu já não lhe dou muito tempo: basta que, daqui a dois ou três anos, chegue à conclusão de que ainda não é gira o suficiente – e de que, agora sim, chegou a altura de ficar definitivamente sexy.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 6 de Junho de 2009

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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