Sábado, 5 de Março de 2011
publicado por JN em 5/3/11

Cultivo com o dinheiro, nunca o escondi, uma relação complicada. Nasci para ser rico, e isso talvez explique muito. Por outro lado, tenho feito um esforço. Às vezes, quase compreendo o funcionamento da economia. Entretanto, e para cobrir as pontas soltas, integrei a máxima que um homem deve integrar aos trinta e cinco: “Reduz as necessidades/ se queres passar bem.” Nada de que não vos tenha já falado aqui. A não ser talvez quanto à citação de Jorge Palma, por esta altura bastante uncool. Mas eu ando assim. Qualquer dia mato esta personagem e construo outra, amiguinha dos animais, elogiosa para com a condução das senhoras, militante da bem-aventurança e opositora feroz de tudo o que faça colesterol. Apetece-me ser mais bonzinho.


De qualquer maneira, ainda não começo hoje. Hoje venho à vossa presença prestar o meu contributo, ainda que modesto, à nossa missão comum de combate à crise.


De há uns meses a esta parte, quase todas as minhas contas domésticas vêm erradas. É mais ou menos o mesmo que me acontece com o extracto bancário, à excepção de que é tudo ao contrário: no banco tenho sempre menos dinheiro do que penso (e o mais provável é que as contas estejam bem feitas), no resto devo sempre mais do que julgo (e a surpresa é se as contas não estiverem erradas). Se gasto dois quilowatts de luz, cobram-me três. Se consumo três metros cúbicos de água, cobram-me quatro. Há umas semanas, telefonei duas vezes para Madrid – cobram-me dois telefonemas para Sidnei. Uns meses antes, aluguei no videoclube quatro filmes malandros, para desenjoar –  no fim do mês a factura dizia que eu tinha alugado oito filmes do Al Pacino.


Foi precisamente aqui que comecei a desconfiar, porque desde o Padrinho III que desisti de ver filmes do Al Pacino. Acontece que, assim que puxei o fio, veio a meada toda atrás. E o que venho agora propor-vos é que, se estiverem em iguais preparos, se juntem a mim: paguem tudo a toda a gente e calem a boquinha. Dá um jeito enorme à economia, que precisa de circulação de dinheiro. E dá-vos um jeito ainda maior a vós, que precisam de circulação de sangue.


É que, ou um homem paga tudo aquilo que lhe cobram a mais nas suas facturas mensais e depois cala-se bem caladinho, a ver se não lhe cobram mais ainda no mês seguinte, ou tem de integrar na rotina mensal dois dias absolutamente suicidas, o primeiro passado ao telefone e o segundo na Loja do Cidadão. Ao telefone, será o suplício do costume. Digitado o número, o computador deixá-lo-á onze minutos e trinta e nove segundos a ouvir Vivaldi. Atendido o telefonema, a mocinha levará quarenta e três segundos só para se apresentar e dar-lhe as boas-vindas. Feita a pergunta, o computador deixá-lo-á novamente sete minutos e vinte e quatro segundos a ouvir Vivaldi. E, respondida enfim a sua pergunta – “Mas como é que os senhores arranjam sempre maneira de me cobrar mais dez ou quinze ou vinte por cento do que devem, caramba?” –, você terá, em todo o caso, de ir à Loja do Cidadão no dia seguinte, ainda por cima com a Primavera a latejar na cabeça.


Nesta, já se sabe, é pior ainda. Primeiro, você tira uma senha e vai-se sentar ao lado de um tipo que cheira mal. Depois, o número da sua senha aparece no visor precisamente quando, em aflição, você deu um salto à casa de banho, para refrescar-se um bocadinho da mal-cheirosa companhia. Finalmente, e duas horas depois, terá conseguido falar com o atendimento, a nova mocinha terá corrigido o problema com um belíssimo sorriso nos lábios e você terá ficado, enfim, a saber a razão do engano: “Foi emitida uma factura de valor superior.” Note-se que ninguém a emitiu: nem a menina, nem o chefe da menina, nem o patrão da menina que há dois anos lhe anda a ir ao bolso à razão de cinco, dez, quinze euros por mês de pequenos enganos. A factura “foi emitida”. Emitiu-se. E, se não foi ela que se emitiu a si própria, então, pronto: foi “o sistema”.


Mas você quer mesmo mais este full time job? Pois então faça como eu: pague e cale-se, que para o mês que vem talvez não seja pior. FMI para quê? BCE para que diabo? Esta crise tem os dias contados – e vai resolver-se, como de costume, com dinheiro em movimento.







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 5 de Março de 2011


(imagem: © www.strategicdc.com)







 

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1 comentário:
De Silva Carvalho a 5 de Março de 2011 às 23:58
"Foi o sistema"! É evocado quase na parte final de mais uma crónica de Joel Neto na última Revista NS do Diário de Notícias. E o grande impulsionador da evocação do substantivo "sistema" foi um conhecido presidente do seu clube, Dias da Cunha. E foi, na altura, alvo de alguma imerecida chacota. Parecia uma acusação difusa sem se aperceber quem eram os alvos. No entanto foi a partir daí que muitos portugueses, começaram a abrir mais os olhos e a levar que muitos enxergassem um pouco mais além e, assim, descodificassem vários "esquemas".
Em termos de "esquemas" creio que a maioria das pessoas ainda não percebeu bem esta crise – e os economistas não estão a saber explicá-la com clareza. É verdade, como se tem dito, que há uma ‘crise nacional’ e uma ‘crise internacional’.Mas, depois desta evidência, a confusão que por aí vai é enorme.
Comecemos pela crise portuguesa. Trata-se de uma crise profundíssima, potenciada por três factos capitais: o fim do Império Colonial, a passagem da ditadura à democracia (evidentemente com liberdades e direitos humanos) e a entrada na União Europeia. Tudo isso, que se pensava vir a ter um efeito benéfico na economia, produziu de facto algumas consequências devastadoras. No entanto não tenho dúvida que, apesar de tudo, não temos qualquer alternativa à nossa continuação na UE e à não saída da zona do euro! Sou optimista e espero melhores dias para o nosso Portugal!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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