Sábado, 19 de Fevereiro de 2011
publicado por JN em 19/2/11

Para Ana Celeste Mendes


 



Peço desde já desculpa por só agora trazer à colação o novo Partido Pelos Animais e Pela Natureza, doravante designado apenas (é ele que quer assim) por PAN. Sei muito bem que um camionista insensível como eu já devia ter produzido há muito a habitual peça de desprezo e ressentimento, apenas denunciadora, aliás, da sua própria labreguice. Em minha defesa, tenho apenas a argumentar a extensão da Declaração de Princípios do partido do doutor Paulo Borges, que, mesmo copiada para Word e paginada a um comedido corpo 12, sem tabulações e com entrelinha mínima, me consumiu onze páginas de impressão e me levou várias noites a ler.


Devo dizer que, para um partido que exige a equiparação dos animais aos homens, ambos com interesses “igualmente tidos em consideração” e nenhum tipo de “egocentrismo especista” envolvido, o PAN foi um bocadinho antropocêntrico. Como todos sabemos, há espécies animais, mesmo das sencientes, que não conseguem ler para além da terceira ou quarta página. Mas, pronto, na altura em que comecei a formar essa conclusão, já o doutor Borges me tinha ensinado aquela palavra, “sencientes”. Quem me ensina uma palavra nova merece um lugar no meu coração. De resto, eu não consigo ficar indiferente a um texto de onze páginas onde conste 16 vezes a palavra “ética”. É uma fraqueza que tenho.


Bem vistas as coisas, a fundação em Portugal de um Partido dos Animais não me surpreende. Há alguns anos que venho assistindo à criação, noutras paragens, de partidos esquisitos: o Partido dos Cães de Duas Caudas (na Hungria), o Partido dos Amantes da Cerveja (Rússia), o Partido Absolutamente Absurdo (Canadá), o Partido do Bill e do Ben (Nova Zelândia), o Partido dos Maluquinhos do Rock ‘n Roll (Reino Unido) ou mesmo o Partido do Amor (Itália). Simplesmente, pensei que o nosso partido cómico já tinha sido criado aqui há uns anos e era o Bloco de Esquerda. Sendo assim, o PAN não é apenas mais uma tontice de dois ou três missionários da bem-aventurança à procura de reconhecimento: inscreve-se numa verdadeira tradição. Absolutamente absurdo, o PAN também se dirige aos cães de duas caudas, não quer deixar de fora nem o Bill, nem o Ben, nem os maluquinhos do rock ‘n roll, é seguramente motivado pelo amor e o seu manifesto foi escrito, quase de certeza, depois de ingerida uma boa quantidade de cerveja.


Apesar de declarar que quer “transformar a mentalidade e a sociedade portuguesas e contribuir para a transformação do mundo”, o manifesto do PAN acaba, porém, por ser uma decepção, revelando-se demasiado comedido (até pouco ambicioso) nas suas propostas concretas. Quer dizer: o PAN pede que os restaurantes passem a oferecer pelo menos um prato vegetariano por dia, mas depois não exige que os restaurantes enfiem esse prato pela goela dos clientes abaixo; quer que o shiatsu e o yoga entrem para o Serviço Nacional de Saúde, mas não faz a mesma exigência, por exemplo, quanto ao tarot, por onde também vagueiam criaturas sencientes (a D. Maya, por exemplo); exige que as pessoas com bichos de estimação possam candidatar-se a apoios estatais, mas já não prevê qualquer subvenção para o animal ele próprio, caso este queira um dia, por exemplo, candidatar-se à faculdade; pede o reconhecimento na Constituição do direito dos bichos à felicidade, mas não impõe como obrigatória essa felicidade, nem aos bichos nem a ninguém.


Acho pouco. Na verdade, o único aspecto em que concordo totalmente com o PAN é quanto à divisão de 0,5% das receitas do IRS entre todos os que se dediquem à defesa dos animais, incluindo o próprio PAN. Depois de José Manuel Coelho ter saído das Presidenciais de mãos a abanar, apesar dos quase 189 mil votos com que envergonhou Alberto João Jardim (isto se ele tivesse vergonha), é preciso garantir que o PAN não sai desta também sem um chavo. O serviço cívico é muito bonito, mas sem aquilo com que se compram os melões nada feito. Para quem tenha dinheiro a mais, portanto, basta ir ao site do PAN, onde se publica o NIB do partido. Consta que já tem mais visitas do que alguns blogs. Mas talvez seja pela impacto dos apoiantes assim mais VIP, nomeadamente o Dalai Lama, a Ágata e a Marluce. É chegada a hora, aliás, de o país reconhecer Marluce. Porque não votando no PAN?







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 19 de Fevereiro de 2011


(imagem: © www.esteiradeletras.blogspot.com)






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8 comentários:
De Silva Carvalho a 20 de Fevereiro de 2011 às 00:02
O congénere do partido PAN na Holanda tem mantido duas deputadas no parlamento (mais um no senado), desde 2006 e parece que tem feito bom trabalho em prol da causa animal.
Por cá, já temos um bom historial de partidos que defendem muito bem as causas de certos "animais", sobretudo se pertencerem à família ou ao círculo de amizades - pior fica o resto, os "rafeiros" que não fazem parte dessa "arca de noé" dos "boys for the jobs", ou vice-versa...
Eu cá por mim tenho uma certa desconfiança com as ambições da malta que não sabe apreciar um bom bife do lombo ou touradas.
No que respeita à baralhação da comicidade do PAN com o Bloco de Esquerda só para quem tem uma pilhéria ou facécia (interiorize mais estes substantivos, além de senciente) muito sui generis, até mesmo tendo em atenção o aparente último tiro de pólvora seca que os outros partidos não têm a coragem de disparar.
De Novos valores Humanos a 22 de Fevereiro de 2011 às 16:25
Remoçao de textos futeis
Como é possivel deixar este tipo de texto, cheio de imbecilidades, sem nivel cultural, com incongruencias a mais...... aqui neste espaço para perdermos o tempo nesta leitura?
Ha assuntos muito mais interessantes para entreter os adeptos do PAN,e nao perdemos tempo com estas autenticas babuzeiras .
O Partido tem coisas essenciais a resolver e nao deve dar voz a este tipo de pessoas que estao perdidas na propria vida.
De Anónimo a 22 de Fevereiro de 2011 às 17:17
Escreve-se "baboseiras". Já que invoca o nível cultural, talvez fosse útil ter em atenção o seu também. JN
De JN a 22 de Fevereiro de 2011 às 17:18
Escreve-se "baboseiras". Já que invoca o nível cultural, talvez fosse interessante ter em atenção o seu.
De J a 22 de Fevereiro de 2011 às 17:51
Meter no mesmo saco o yoga e o shiatsu com o tarot é de facto de labrego. De resto está um texto giro, sim senhor. Felicidades para a carreira de humorista!
De Bruno Lopes a 23 de Fevereiro de 2011 às 12:44
Independentemente da sua posição e entendimento acerca da temática em questão, considero triste, no mínimo, os comentários esboçados. Revelam, além de uma elevada falta de respeito, ignorância e são dignos de pena. Desejo que possa um dia sair desse estado mental completamente ignorante em que vive e consiga crescer e tornar-se um ser melhor. Cumprimentos.
De JORGE ESPINHA a 23 de Fevereiro de 2011 às 19:29
Caro Joel

Tenho para mim que aqueles que defendem com demasiado fervor os direitos dos animais domésticos o fazem em detrimento do humanismo. São frequentemente pessoas com insensibilidade ao sofrimento humano. No mundo de hoje perante as injustiças em que está imersa a humanidade a preocupação com os direitos dos bichinhos é uma prova de deficiência mental. Por todo o Mundo mas com maior representação nos países ricos , pessoas com dificuldades no relacionamento com os outros encontram refúgio na companhia dos animais de estimação. Para eles a inconstância dos seres humanos é compensada pela imutabilidade dos animais.
Em cada época e sociedade o puritanismo tem a sua válvula de escape, cá no ocidente temos vários novi-puritanos : os comedores de alface, os fanáticos da saúde, os amigos dos bichinhos, todos á espera do ajuste de contas , do dia do juízo final , do dia em que farão pagar ao resto da humanidade pelo enorme rol de humilhações sofridas.
Para mim é uma prova consumada da decadência ocidental , á nossa volta o mundo sofre convulsões tremendas e andam uns lunáticos a discutir os direitos dos cães e dos gatos.
De Blondewithaphd a 24 de Fevereiro de 2011 às 13:17
Eu vi uma reportagem sobre o PAN na TV, achei... bem... no comments...

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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