Sábado, 12 de Fevereiro de 2011
publicado por JN em 12/2/11

Se me perguntassem na infância o que gostaria eu de ser na vida adulta, o mais provável seria responder: “Desportista profissional.” Se me perguntarem na vida adulta o que gostaria eu de ser na vida mesmo, mesmo adulta, o mais provável será responder, ainda hoje: “Desportista profissional.” Independentemente do grau de realização que possa obter por publicar livros, escrever nos jornais e mandar bocas em geral, não vejo nada a que gostasse mais de ter dedicado os meus melhores anos do que a fazer birdies no PGA Tour a ou defender penáltis na Liga dos Campeões, sendo, ainda por cima, pago para isso.


Agora, ilusões sobre o desporto dar saúde, nunca tive. O que dá saúde é fazer exercício. Dar uma corridinha, fazer um bom passeio de bicicleta, jogar 18 buracos a bom ritmo, nadar todos os dias durante 30 minutos, com mais ou menos bonomia, pela fresquinha. O desporto, em si, não dá saúde a ninguém. Pelo contrário, e mesmo sendo eventualmente uma fonte de dinheiro, não deixa nunca de ser uma fonte de problemas. Peço desculpa àqueles que insistem em fazer do rebento o novo Cristiano Ronaldo: ao longo de uma carreira, ou mesmo apenas de alguns anos, um desportista profissional submete-se a cargas físicas e emocionais de tais dimensões que dificilmente conseguirá sobreviver-lhes como mais do que um farrapo.


Uns morrem ainda jovens, com overdoses ou ataques cardíacos resultantes do consumo de doping a que, quisessem-no ou não, não escaparam. Outros penduram as chuteiras (ou os tacos ou as raquetes ou os capacetes) e ficam para ali, a olhar para o vazio em frente à televisão, engordando até que lhes sobrevenha o mesmo ataque cardíaco a que escaparam aos 30, quando ainda se dopavam. E outros ainda chegam a velhos e comparecem a homenagens e aceitam os abraços todos e depois voltam para casa destruídos de bêbedos porque, afinal, já não descortinam em si próprios o homem que aquela gente amou – e que, bem vistas as coisas, talvez não tenha existido nunca.


Clichés apenas, o que descrevo? Talvez. Sou amigo de vários desportistas profissionais: nenhum deles se dopa – e todos eles estarão aí para uma nova e fervilhante vida após a reforma desportiva. De todo o lado, aliás, nos vão chegando mais exemplos disso: futebolistas que viram políticos, tenistas que viram escritores, basquetebolistas que viram filantropos, basebolistas que viram desportistas profissionais de outras modalidades ainda, passíveis estas de serem praticadas até mais tarde. E, porém, é o dito cliché que me ocorre quando me cruzo com a história de Vanessa Fernandes, uma das mais fulgurantes atletas da história do triatlo, modalidade ainda por cima tecnicamente heterogénea e, do ponto de vista do endurance, do mais exigente que há.


No meio do coro de lamentações, desabafos e confidências, retenho uma frase do seu pai (e desde sempre “relações públicas”), Venceslau Fernandes: “Ela é uma rapariga muito forte. Não chora.” Pois por aí andará, eventualmente, o busílis. Vanessa Fernandes é, de facto, uma rapariga muito forte, caso contrário não teria conseguido suplantar as mais fortes do mundo em corridas que começavam com 1,5 km de natação, passavam por 40 km de ciclismo e terminavam com 10 km de atletismo. Mas até os mais fortes precisam de uma válvula de escape. Ao fim de uma série de anos a exigir o máximo de si próprio, a acrescentar-se as mais poderosas expectativas de terceiros e – o que é o pior de tudo – a aprender a lidar com a impossibilidade da perfeição, um desportista profissional tem o direito, no mínimo, a chorar. Vanessa não chorou. Mike Tyson não chorou. Kobe Bryant não chorou. Tiger Woods não chorou. Eric Cantona não chorou. E, cada um à sua maneira, todos eles adoeceram.


Eis mais uma razão por que é um desperdício tão grande não ter-me tornado desportista profissional: posto um mínimo de condições, eu choro como uma Madalena. É uma lástima, na verdade, uma tão fulgurante carreira como aquela que eu poderia ter tido acabar às mãos de um pormenor tão insignificante como a falta de talento.







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 12 de Fevereiro de 2011


(imagem: © www.enciclopedia.com.pt)






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3 comentários:
De Silva Carvalho a 13 de Fevereiro de 2011 às 00:06
A enorme Vanessa Fernandes, campeã do Mundo em 2007 e medalha de prata nos Jogos Olímpicos Pequim 2008, anunciou que vai interromper a carreira devido a problemas da saúde. A vice-campeã olímpica nega, no entanto, a possibilidade de ter que abandonar definitivamente a alta competição. Ainda que seja um abandono temporário a verdade é que esta decisão de Vanessa Fernandes pode hipotecar a sua presença nos Jogos Olímpicos de 2012, que se vão realizar em Londres
Apesar de a atleta não especificar quais os problemas de saúde que a afectam, crê-se que sofrerá de uma anorexia nervosa. Já em 2010, a atleta disse em entrevista ao DN estar completamente dedicada aos jogos de Londres 2012, após dois anos de depressão e uma anorexia nervosa que lhe retiraram o prazer de competir.
Depois de ter atingido 20 vitórias em Taças do Mundo, cinco títulos de campeã europeia, a atleta optou por fazer uma interrupção, para que possa, dentro em breve, regressar em pleno. Aguardamos com expectativa o regresso às competições, por parte de uma competidora ímpar no panorama mundial do triatlo.
De JORGE ESPINHA a 15 de Fevereiro de 2011 às 16:19
caro Joel


Creio que a infelicidade da Vanessa Fernandes é mais um exemplo de como a psicologia é descurada no desporto Português. Fernando Mamede é o caso mais célebre mas está longe de ser o único,Naide Gomes é a meu ver outro exemplo . Na época passada o Sporting poderia se ter livrado de alguns dissabores se a equipa tivesse sido apoiada por um psicólogo desportivo(esta época o SCP está para além de qualquer ajuda desse tipo).
É uma pena que ela falhe a presença em Londres 2012 a sua carreira Olímpica ficará assim comprometida pois penso que 2016 está longe demais.
De Ricardo a 24 de Fevereiro de 2011 às 11:18
Entendi a crónica e concordo com o que escreve. Mas não percebo a parte do Kobe Bryant. Continua a ser o melhor jogador do Mundo, a "concorrer" para melhor de sempre e continua a ser campeão..

Cumps


Frank and Hall's Stuff (http://frankandhallsstuff.blogspot.com/)

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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