Sábado, 5 de Fevereiro de 2011
publicado por JN em 5/2/11

Não julguem que não estou alerta para o problema. Sei bem que os tempos mudaram, que as mulheres tiveram de aprender uma série de novas competências, que aprender novas competências lhes levou todo o tempo que haviam destinado a cultivar melhor as velhas e que, basicamente, é bastante normal, hoje em dia, uma mulher não saber coser um botão. Mas há uma diferença significativa entre uma mulher não saber coser um botão e essa mulher sentir orgulho em não saber coser um botão, o que será pelo menos tão triste como um homem ter de chamar o reboque por causa de um pneu furado e, ainda por cima, envaidecer-se disso.


Não me entendam mal: sou eu quem cose os meus botões, quando eles se desprendem. E sou eu quem, não tendo a empregada deixado camisas passadas, liga o ferro de engomar e faz os possíveis. E sou eu quem, dois ou três dias por semana, vai para a frente do fogão. Acho as Marias-rapazes sexy e, portanto, sempre fiz um esforço por, em compensação, ser um pouco prendado também. Mas uma coisa é um homem decorar a sala porque quer e uma mulher acender uma lareira porque lhe apetece. Outra é esse homem ter de decorar a sala porque não sabe acender a lareira e essa mulher ter de acender a lareira porque a simples ideia de decorar a sala lhe ofende o espírito, lhe coarcta a individualidade, lhe ameaça a independência.


Hoje em dia, vivemos rodeados de convenções. Antes também vivíamos, mas, em tudo o que interessa a esta crónica, as convenções eram melhores. Uma mulher mesmo a sério sabia fazer uma bainha, cozinhar um bolo mármore, tricotar uma camisola. Uma mulher mais ou menos sabia pelo menos coser um botão, fazer uma canja e decorar a sala. O mesmo com os homens. Um homem mesmo a sério sabia estrovar um anzol, disparar uma caçadeira, bater um sand wedge. Um homem mais ou menos sabia pelo menos mudar um pneu, acender uma lareira e abrir uma garrafa de vinho. Entretanto, comia-se melhor, porque havia sempre bolo mármore na cozinha. Fazia-se talvez menos sexo oral, mas por outro lado ele não estava tão banalizado. Quando ocorria, era uma festa – e pela vizinhança, em sabendo-se, morria-se de inveja. No essencial, vivia-se menos, mas melhor.


Aqui há uns dias precisei de uma broca de 6mm com ponta de diamante. Em processo de mudanças – vocês já devem estar fartos de crónicas com mudanças, mas juro que fiquei com dados para continuar nisto até 2012 –, fui à caixa de ferramentas  e encontrei quarenta e nove brocas de todos os tipos e tamanhos, mas nenhuma de 6mm com ponta de diamante. Entretanto, era domingo, pelo que me restavam três soluções: desistir de pendurar os quadros, ir para um shopping fazer sardinha em lata ou pedir uma broca emprestada a um vizinho. Telefonei a nove. Dois não estavam. Dois não tinham berbequim. E cinco nem sequer tinham ferramentas: quando precisavam de pregar um prego, apertar uma porca ou vedar um azulejo, chamavam um profissional ou então legavam a avaria às gerações vindouras. O que talvez fosse mau sinal sobre a minha vizinhança se não se passasse o mesmo com as outras vizinhanças todas, na cidade e até na província, onde a escassez de homens a sério é ainda mais gritante.


Porque um homem a sério não tem de ter apenas um escadote, um berbequim e uma caixa de parafusos: um homem a sério tem mesmo de ter uma aparafusadora eléctrica para, no fim, apertar aqueles parafusos com segurança e conforto. Dir-me-ão os mais incautos, convencidos de que me apanharam agora em falta: “Ah-há! Uma aparafusadora eléctrica. Homem que é homem aparafusa à mão!” Tontice. Um homem a sério tem uma ferramenta para cada propósito e não faz de forma artesanal nada que possa fazer electricamente, como os profissionais. Bem vistas as coisas, um homem a sério podia ter a casa toda em reparações e, porém, ficar ali sentado a tarde inteira, a ver as suas máquinas trabalharem sozinhas. No limite, até ganhava tempo para estrovar anzóis.


Deu-me fome, esta conversa. E sabem que mais? Eu efectivamente tenho um bolo mármore quentinho na cozinha. Bem o mereço: há duas semanas que deixei a aparafusadora eléctrica a apertar parafusos no quarto de arrumos.







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 5 de Fevereiro de 2011


(imagem: © www.hybridwaterpower.com)






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5 comentários:
De Silva Carvalho a 6 de Fevereiro de 2011 às 23:26
Sobre a crónica epígrafe, afigura-se-me desenvolver algumas considerações:

1) Não é drama nenhum uma mulher não saber pregar um botão;
2)Geranto haver uma percentagem alta de encartados, homem ou mulher, que não sabem mudar um pneu;
3)Não caem os parentes na lama se um homem pregar um botão ou passar a ferro;
4)Acender uma lareira ou decorar uma sala nã é nada de transcendente que um homem, mulher ou adolescente não saiba concretizar;
5)Não entendo que para pendurar um quadro seja necessário um berbrquim, a não ser que estajamos em presença de quadro com dezenas de quilos!;
6)Muita atenção que, recentemente, está cientificamente provado que a insistência no sexo oral pode acabar em cancro na boca;
7)Aposto que o bolo de mármore não foi feito pelo cronista, apesar de não duvidar das suas potencialidades culinárias;
8)Desconheço o termo "estrovar um anzol". Presumo que seja um termo usado pelos pescadores(particularmente nos Açores?) que pode significar a ligação da linha ao anzol.

E...pelos vistos, segue a saga das mudanças.
De metro madrid a 10 de Fevereiro de 2011 às 16:50
Olá, estou a estudar Português e eu aconteceram em seu blog que bom!
De Júlio (terceirense) a 16 de Março de 2011 às 12:38
Joel mamén, é estorvar um anzol, não estrovar.

uau, um burro a ensinar um doutor.
De Joel Neto a 16 de Março de 2011 às 19:29
:))) Mas olhe que não, Júlio. É estrovar mesmo. A corruptela popular é que o transformou em estorvar. (Estorvar, naturalmente, também existe, só que é outro verbo – e, aliás, também dado a erros...). Um abraço, JN
De Júlio a 17 de Março de 2011 às 12:34
Camarada Joel: http://books.google.com/books?id=OkZDAAAAYAAJ&pg=PA784&lpg=PA784&dq=estorvar+um+anzol&source=bl&ots=bUd4UFAQvM&sig=iuRrqcIlzM1sXrivxFhJg26BFPk&hl=en&ei=Kv-BTae3E4-WhQeZn_TEBA&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1&ved=0CBYQ6AEwAA#v=onepage&q=estorvar%20um%20anzol&f=false

Baseei nisto. Mas também é um diccionário (com 2 cês) da língua portugueza. Independentemente de quem tem razão, aqui na ilha é estorvar. e se disseres o contrário, já estás a estorvar hehe

haja saúde

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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