Sábado, 22 de Janeiro de 2011
publicado por JN em 22/1/11

Claramente: o verdadeiro criminoso, em todo o processo que levou ao homicídio de Carlos Castro, é Renato Seabra. Em sendo preciso estabelecê-lo – e neste caso parece que é –, a vida é sempre o bem supremo. Mas há no assassinato de Times Square aspectos que o tornam mensageiro de demasiadas urgências contemporâneas para que possamos recordá-lo apenas como a história de um pobre-diabo que matou outro pobre-diabo (ou mesmo apenas de dois turistas portugueses a fazer figuras tristes no estrangeiro, que sei eu).


Carlos Castro aproveitou-se de um débil mental e um débil mental aproveitou-se dele. A ordem dos factores não é tudo, mas tem importância. Renato Seabra supôs que dormir com aquilo que entendia ser um velho repelente haveria de trazer benefícios à sua projectada carreira como manequim. Ao fim de dois meses e meio (dois meses e meio desde a primeira mensagem no FaceBook, note-se), rebentou. E agora, a não ser que entre em cena a mui cinematográfica figura da temporary insanity, vai envelhecer numa prisão norte-americana, a fazer de mulher-aranha para assassinos e violadores da Nova Inglaterra e arredores.


Para trás, fica um romance tórrido. Pelo menos para Carlos Castro, que os amigos viam “mais feliz do que nunca” – e que a estes, aliás, não se cansava de referir que Renato Seabra era, no fundo, um heterossexual desencaminhado, assim reforçando a dimensão da sua conquista.  Renato, por sua vez, tentava esconder o “amigo” – e a quem o questionasse sobre a natureza daquela inusitada relação, insistia: tratava-se de um amigo mesmo, nunca mais do que isso. Os contornos do caso, na sua mente, eram talvez os da prostituição. Mas nem em conversa consigo próprio ele usaria tal palavra.


Não me interessa saber quem mais cedeu e quem mais coleccionou ao longo daquele absurdo romance. Renato Seabra, talvez convicto da sua heterossexualidade, dormiu durante semanas com aquilo que entendia ser um velho repelente e, bem vistas as coisas, não coleccionou com isso qualquer vantagem. Carlos Castro, sabedor de que, aos rapazes bonitos e musculados, já apenas chegaria com recurso a algum grau de coação, cercou o docinho de formigas, mas por outro lado pagou-o com a vida (que perdeu, aliás, depois e antes de longa tortura).


Carlos Castro morreu mais ou menos como esperava: assassinado. A triste ironia é que o homicídio com que sonhara não era este: era um tiro desferido por uma dondoca, em plena Moda Lisboa, com toda a gente a ver, depois de o “jornalista” ter-lhe feito a desfeita de escrever numa revista: “Eu sei que ela vai ficar um bocadinho aborrecida comigo, a minha queridíssima X, mas acho que o vison não encaixava nada bem naquela toilette.” No fundo, era essa a vertigem que Carlos Castro, exacerbando a sua própria importância, julgava existir à sua volta. Tudo o resto, incluindo as predações, eram rotinas. E é esse contra-senso que prova como, apesar de tudo, a debilidade mental não se resumia a um dos lados da equação.


Carlos Castro morreu como esperava e há-de ter vivido como queria. Estava no seu direito. Mas não é por isso que deixa de ter exercido sobre a vida pública portuguesa, sobre a nossa cultura pop, uma influência perniciosa. O mundo que ele ajudou a construir é deplorável: quase tão deplorável como Renato Seabra ele próprio. Renato Seabra é, na verdade, uma co-criação de Carlos Castro. Renato Seabra e tantos como ele, mesmo que sem tendências violentas – foi isso que Carlos Castro e tantos como este, babosos ou não, criaram. Uma geração inteira de gente ociosa e disposta a (quase) tudo por um lugar no coração das massas, via ondas hertzianas.


Carlos Castro era a trash culture, era a reality TV, era quase toda a acefalia do milénio concentrada numa só pessoa. Renato Seabra, sendo talvez mais alguma coisa ainda (e pior), é a trash culture, é a reality TV, é quase toda a acefalia do milénio concentrada numa só pessoa também. E o mais que se pode desejar, agora, é que não chegue a perceber como, afinal, nada na sua vida fazia sentido. No limite, só aquela acefalia original, só aquela ignorância, só a absoluta estupidez que o levou a Nova Iorque poderá, na prisão, protegê-lo de mais sangue ainda. Já chega de sangue.







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 22 de Janeiro de 2011


(imagem: © www.homorazzi.com)






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10 comentários:
De Manuel Carvalho a 23 de Janeiro de 2011 às 00:20
Os portugueses, e não só, adoram uma boa teoria da conspiração. E quando mete o homicídio de uma figura pública, sexo, sangue e mistério então vale tudo.
O assassinato de Carlos Castro continua a ser referencia na imprensa nacional e internacional e o acontecimento ganhou contornos de uma dimensão inimaginável. As reportagens com uma cobertura exaustiva têm dominado os jornais televisivos, sendo tema de abertura também dos noticiários das rádios e primeira página dos jornais um pouco por todo o mundo, que contam a história do assassino e o desenrolar dos pormenores que se vão conhecendo aos poucos pelos testemunhos que vão sendo recolhidos. Mas, a dimensão da projecção do acontecimento tem-se notado muito na Internet, nas edições online de todos os meios de comunicação nacional e mesmo internacional.
O homicídio de Carlos Castro foi uma tragédia pessoal que emociona o país. A maior dimensão da tragédia foi para o próprio, porque foi vítima de um crime hediondo, cometido com desmedida malvadez. Em segundo, para o jovem suspeito de ter cometido o crime, porque, a ser condenado, levará muitos anos a recompor a sua vida. É também um drama – ampliado pela pressão mediática – para as respectivas famílias. É um drama que vem recordar fissuras e descontinuidades relativas às opções sexuais das pessoas e que subsistem e se confrontam na sociedade portuguesa.

De António Castela a 23 de Janeiro de 2011 às 11:00
Muito bem Joel Neto
De Isabel a 23 de Janeiro de 2011 às 12:53
Estou perfeitamente de acordo! Não conseguiria expressar melhor, que aqui escreve, embora pense exactamente da mesma maneira.
De jorge espinha a 23 de Janeiro de 2011 às 19:10
caro Joel

Que mais se pode dizer , tem toda a razão. Talvez fosse inevitável que esta montanha de estupidez que se tem erguido ao longo dos anos parisse esta tragédia. Ainda assim é pena que se tenham destruído duas vidas.
De Helena a 24 de Janeiro de 2011 às 11:33
este texto pode não ser muito simpático, mas além de estar bem escrito é uma optima análise sociológica do meio social em causa, gosrei muito @Joel
De Paulo De Carvalho a 24 de Janeiro de 2011 às 18:08
O Renato vai ser muito feliz aqui nos EUA,a sua ementa masculina vai ser diversa.

PS:Nova Iorque nao faz parte da Nova Inglaterra(Massachusetts,Maine,New Hampshire,Connecticut,Rhode Island e Vermont)
De JN a 24 de Janeiro de 2011 às 18:18
Obrigado pela correcção. Um abraço, JN
De Ruben a 24 de Janeiro de 2011 às 22:01
Estou de acordo com o texto transcrito. A verdade é que ao fim ao cabo ganhou contornos de livro cheio de tragedia grega "tudo morre no fim ou quase" e que transmite e muito a cultura e sociedade actual. Carlos teve a morte ao fim ao cabo que sempre quis.Isto da para Teatro... O Renato foi levado pelo querer de ser alguem a qq preço. A mãe tem muita culpa. Incentivou e depois vem dizer q nao era homosexual. Entao q estava lá a fazer? Em serviços profissionais? Prostituicao minha cara sra mae. Prostituicao. Ao rapaz dou um certo desconto pq a idade o merece. E o final triste e tragico bem remete para a situacao em q se colocou sem se aperceber q virou prostituta. Momentos de Loucura e percepçao ao acordar da sua realidade vao dar-lhe muitos anos infelizes nas cadeias americanas
De Miguel de Sousa Azevedo a 25 de Janeiro de 2011 às 17:35
O texto evidencia, de forma clara e naturalmente crua, a opinião de muitos. Quase todos quantos conseguem manter uma distância saudável para este mediatismo artificial em que o nosso país caiu de cabeça. A vida de Carlos Castro interessa-me na exacta medida em que a minha deveria interessar ao colunista. Assim, considero que houve um crime hedidondo, que vitimou uma pessoa supostamente também hedionda. Mas apenas isso.
De frei Xicão a 25 de Janeiro de 2011 às 17:35
Apesar de concordar com o que li, sei que não é o que vende, por isso irremediavelmente o triste assunto vai ser esticado até onde der...
E quem conta os trocos para comprar um jornal vai ter de levar com esta palha.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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