Sábado, 15 de Janeiro de 2011
publicado por JN em 15/1/11

Desalojado por uma infiltração que, apesar da boa fama da meteorologia lisboeta, se transformou no ano passado em duas infiltrações e este ano em dois chafarizes, dei por mim, nas últimas semanas, à procura de casa. A ideia não me desagradou. Se não mudo de poiso de cinco em cinco anos, é porque dá um trabalhão encontrar casa nova, dá um trabalhão ainda maior mudar os móveis e os livros e dá um trabalhão superlativamente maior ainda mudar a morada às contas domésticas, encontrar o café e o quiosque certos para a nova rotina e, grosso modo, levar o novo bairro todo a decorar o nosso nome. Pode-se tirar o rapaz da Terra Chã, mas não se pode tirar a Terra Chã do rapaz.


De resto, as casas são sempre mais caras do que deviam, mas os valores indicados nunca deixam de ser “para negociar”. Os metros quadrados também se revelam sempre menos do que aqueles que vêm anunciados no site, mas a certa altura um tipo aprende que tem, logo à partida, de contar com menos trinta por cento de área. Nada a fazer: são as idiossincrasias da psique pátria. E, de qualquer forma, nunca é completamente desagradável a ideia de começar de novo, num lugar novo, com cheiros novos, rodeado de rostos novos e munido de esperanças novas também.


Adiante. Encontrei a casa que pretendia ao fim de cinco minutos apenas. Nem de propósito: ficava precisamente do outro lado da rua, janela do novo quarto e varanda do velho escritório mirando-se uma à outra, como que disputando-me. Acontece que sou casado, por sinal com uma mulher – e, como tal, enquanto duravam as negociações, não tive outra alternativa senão ir à procura de planos B, visitando tudo muito bem visitadinho e fazendo uma shortlist, visitando tudo novamente e reduzindo a shortlist, visitando outra vez e elegendo um top3, visitando só mais uma vez e escolhendo, enfim, a melhor de todas as casas alternativas, para o caso das tais negociações falharem (e que, por acaso, por essa altura até já nem devia estar disponível).


De caminho, experimentei os bairros ricos e os bairros pobres. Fui às zonas da moda e às periferias – conversei até sobre uma moradia nos subúrbios, hipótese sobre todas as outras absurda. Era indiferente: a vencedora estava escolhida, tudo o resto era conversa apenas. Mas o facto é que algumas das casas que vi divertiram-me e outras deprimiram-me. Divertiram-me as casas com luz, nichos curiosos e divisões inesperadas, que o mediador revelava com um gesto teatral, abrindo uma porta como um ilusionista que me tirasse de trás da orelha um ovo cozido. E deprimiram-me as casas minimalistas.


Eu ainda consigo perceber a arquitectura minimalista, mas jamais perceberei – e toda esta crónica, afinal, para dizer isto – a decoração minimalista de uma casa. Entra-se numa casa minimalista e simplesmente não se percebe do que se ocupam aquelas pessoas: o que lêem, o que ouvem, do que falam, no que pensam. Aparentemente, ocupam-se em exclusivo de fotografar-se a si próprias na sua casa – e no resto do tempo ficam ali, de novo a olhar para a sua casa: para o sofá enorme, com uma só almofada ocre ao meio, e para o candeeiro de pé alto, com abat-jour do mesmo pantone; para o pufe a um canto da sala, onde ainda ninguém se sentou a ver se não engelha, e para a planta no canto oposto, que tem nome e tudo (chama-se “Julie”, com pronúncia inglesa); para a aparelhagem Bang & Olufsen, seguramente destinada a ouvir a RFM, e para o ecrã plasma em torno do qual tudo o resto gravita, e onde se podem ver os programas da SIC Mulher.


Pensava que apenas os solteirões viviam em casas assim? Acreditem: famílias inteiras também. E, no entanto, é como se, ali, tudo batesse certo. Os livros, provavelmente, estão no iPad. O discos talvez no iPod. Para necessidades primárias, há o ginásio. E se, entretanto, a alma pede trejeitos, então o melhor é ir exercê-los no carro, para não engelhar também.


A ideia que dá é que são elas próprias, aquelas pessoas, peças de decoração nas suas casas – e que, se algum dia precisarem mudar de uma casa para outra, lhes bastará alterar as coordenadas do GPS. Se querem que vos diga, não há solidão igual à de uma casa de revista.







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 15 de Janeiro de 2011


(imagem: © www.mira-efraty.com)






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8 comentários:
De Manuel Carvalho a 16 de Janeiro de 2011 às 23:12
Depois de se saber onde se gostaria de viver e de ter uma ideia do tipo de casa que se pode comprar, está na altura de se começar a procurar casas. A Internet é um excelente meio para preparar uma primeira lista, mas a oferta é cada vez maior e a grande maioria das casas em venda está com preços acima do mercado ou não reúnem as condições necessárias que se pretende. A menos que se disponha de muito tempo para gastar em visitas inconsequentes ou se queira arriscar-se a pagar um preço acima do valor de mercado, é fundamental dispor da assistência de um especialista para ajudar a rentabilizar e organizar todo este processo.
Na compra de casa, a localização é tão ou mais importante do que as suas características. Em regra, a localização é um factor crucial em qualquer mudança. Além disso, deve-se considerar a distância ao local de trabalho, aos transportes públicos o acesso a zonas comerciais e de serviços, assim como esquadra de polícia e bombeiros, centros médicos, escolas e infantários, a colecta dos lixos, o trânsito, o estacionamento e zonas de diversão.
Com ou sem GPS, também podemos sonhar com a casa ou vivenda ideal que nos apresentam as inúmeras revistas da especialidade.

De Maria Lino a 17 de Janeiro de 2011 às 23:45
É verdade! As casas minimalistas estão na moda, E COMO TAL, ATÉ AS FAMÍLIAS SE ESFORÇAM POR TER E MANTER UMA ASSIM!
Além disso, pensando bem, a maioria das pessoas não passa tempo nenhum em casa, só para dormir, e nem sempre..., para lavar e secar a roupa, para aspirar e limpar o pó...
Ora, uma casa onde se espalha tudo pelo chão e onde se pode estar e trabalhar a qualquer hora do dia e da noite, é muito mais interessante, mas não é para todos!
Ainda assim, mudar de casa ou fazer obras é boa fonte de inspiração !
Parabéns!

De lídia a 18 de Janeiro de 2011 às 00:32
Sabe, Joel, a casa escolhida tem que nos aceitar.
A gente entra numa casa e tem que poder sentar-se no chão, arrastar o rabo no chão e o nosso rabo e tudo o resto tem que sentir que aquela é a nossa casa.
Assim como a terra onde vamos parar, senão somos estrangeiros e sentirmo-nos estrangeiros na terra onde temos que viver dá uma solidão do caraças. Mudo muito de casa e de cidade, os meus amigos dizem, só estás bem onde não estás.

(não publique, isto é para si)

Vc um dia destes disse o seguinte: há actores sem gente dentro
fiquei apensar nisso, disse algo que sinto mas vc disse-o bem
De Azoriana a 20 de Janeiro de 2011 às 10:46
"Pode-se tirar o rapaz da Terra Chã, mas não se pode tirar a Terra Chã do rapaz" e "não há solidão igual à de uma casa de revista"
Comento só para destacar estas duas tiradas de mestre! Comungo da mesma opinião. A primeira posso aplicar a mim só que mudo a localidade mas o sentimento é idêntico. A segunda é uma GRANDE verdade, embora eu goste de ver uma casa de revista só para sonhar, uma vez que não a consigo sequer alcançar fora do sonho. Mas também há casas que a perfeição é exageradamente exagerada que chego a pensar que também não há solidão maior do que não se ver um grão de pó, algo fora do lugar e o facto das pessoas só irem lá para estarem uma parte do dia.
Que a sua casa seja o exemplo para muitas e que nela se sinta amado que é meio caminho para a felicidade.
Ah, vim aqui hoje porque encontrei o destaque ao título nas notícias do local / SAPO. Agora estou a pensar porque me atraíu as "Casas de revista"... Talvez porque sonho com elas mas ainda bem que é só sonho.
Cumprimentos
De terceirense a 21 de Janeiro de 2011 às 15:47
"Pode-se tirar o rapaz da Terra Chã, mas não se pode tirar a Terra Chã do rapaz."

Estiveste bem e mal. Uma meia verdade. A Terra Chã são cains e heroína e haxixe. Tens pouco de Terra-Chã.
De JN a 21 de Janeiro de 2011 às 18:26
A minha Terra Chã não é essa. A minha Terra Chã é a Terra Chã dos Dois Caminhos. A Terra Chã das famílias e da gente boa. E essa Terra Chã, para mim, não desaparecerá nunca. Nem que, a certa altura, não exista noutro sítio senão na memória.
De Anónimo a 26 de Janeiro de 2011 às 14:47
A minha casa era tão perfeitinha quando a comprei e a decorei ao meu gosto que cheguei a desejar que não me entrasse ninguém em casa com filhos para não mexerem em nada, para não me desordenarem a decoração conseguida!
Hoje tenho uma filha e a minha casa parece finalmente habitada. Quando olho para a sala sem um brinquedo no chão tenho a sensação de estar noutro sítio e não no aconchego do lar. Olho para as paredes cheias de fotos de férias, de passeios, de brincadeiras, de momentos especiais e jamais, jamais trocaria uma casa de revista pela minha casa desarrumada e por vezes suja (sim...),apinhada de brinquedos e de sussurros de felicidade por todos os cantos!
De Mônica a 19 de Março de 2011 às 22:36
Ah, as casas minimalistas são irritantes. E também aquelas decoradas por designers que acreditam que a gente mora numa revista. Em casas assim, não sei sentar no sofá, não sei ficar à mesa, não sei nem se posso respirar direito. Os objetos estão milimetricamente organizados, os livros nas estantes nunca foram (ou serão) folheados, as almofadas não são para recostar. Miinha casa é cheia de coisinhas, sabe? Que minha mãe usava. Que foram feitas pelas minhas avós. O metrônomo em cima do piano era do meu pai. As fotos usadas como quadros fui eu mesma quem tirou. Tem coisa que não combina com o restante da decoração: souvenirs de viagem, presentes de amigos, tudo misturado. A casa de revista pode ser linda, mas não é minha...
Cheguei aqui pelo Pedro e, como a gente diz aqui no Brasil, 'sentei praça e fui ficando...'
Mônica

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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