Sábado, 8 de Janeiro de 2011
publicado por JN em 8/1/11

De todos os grandes dons humanos, o que mais invejo é o da avareza.  Ainda no outro dia me perguntaram, em jeito de brincadeira: “E tu, Joe? Resoluções para o Ano Novo?” E eu: “Aprender a avareza.” Todos os anos dou a mesma resposta e todos os anos chego ao fim com a necessidade de dá-la novamente. Ao longo da vida, aprendi uma série de coisas: a juntar palavras e a falar inglês, a distinguir Bach de Albinoni e a fazer ovos mexidos. A avareza, nunca a aprendi. E o mais que desejo para 2011 é aprendê-la.


Conheço pessoas que sabem sempre onde os Longa Vida de Morango estão mais baratos, que são capazes de palmilhar dez quarteirões para comprar um pacote de sal por menos três cêntimos e que de bom grado cobram aos amigos uma tarifa por cada dois quilómetros de boleia. Não falo dessa avareza, até porque isso não é avareza. Isso é quase sempre necessidade – e, quando há necessidade, a coisa mais fácil deste mundo é ser avarento. De maneira que não vale a pena virem já com coisas como: “Ah, tu queres ser avarento? Que luxo. Eu cá não tenho outro remédio senão sê-lo…”


A avareza que me interessa, pelo menos enquanto por ela puder estar interessado, é a avareza praticada por opção. Conheço tipos com vidas confortabilíssimas e que, no entanto, não cometem um excesso que seja. Tipos que entram numa loja, gostam de uma camisola, desejam mesmo comprar a camisola, podiam sem dificuldade comprar uma dúzia de camisolas iguais àquela e, mesmo assim, não a compram. Dizem-se parcimoniosos, económicos, parcos, modestos, frugais, módicos. Eufemismos apenas: o que eles são é avarentos, forretas, agarrados, unhas-de-fome, forra-gaitas, Tios Patinhas. E é isso mesmo que eu quero aprender a ser também.


A avareza é a suprema liberdade. É experimentar o último modelo de ténis da Merrell, conferir que nos ficavam a matar com aquelas calças de ganga meio rasgadas que temos lá em casa, saber que cento e cinquenta euros não fariam grande diferença no nosso orçamento mensal e, mesmo assim, não os comprar. É ir jogar golfe, estar perfeitamente consciente de que umas bolas de cinco euros nos aumentam em vinte por cento as possibilidades de fazermos um bom resultado, a suprema obsessão, e, apesar disso, continuar a jogar bolas de quatro euros e meio. É andar num Seat Ibiza, sentir inveja dos Mercedes rápidos e seguros e confortáveis e bem climatizados que nos ultrapassam, saber muito bem que um Mercedes dos mais modestos não era loucura nenhuma para o nosso rendimento e, porém, determinar sem reservas que um Mercedes jamais.


Ser avarento, em podendo ser outra coisa, é vencer a economia, é vencer a moda, é vencer a inveja. É vencer o desejo. E eu, apesar da inveja, quero ser avarento. Quero aprender a avareza, a que aliás em nenhum lado a Bíblia chama pecado mortal. Quero descobrir o dom da avareza e multiplicá-lo por dois, como manda o Evangelho de Mateus fazer com os dons importantes. Porque ser avarento também é vencer o tempo. É estar neste tempo, posto perante a possibilidade de um prazer, e no entanto saber que depois deste tempo outros tempos haverá, em que a possibilidade desse prazer terá de repetir-se – e, então, sim, em sendo adulto usufruir dele, reconhecer ser chegada a hora. Ser avarento é ser adulto. E é também a melhor forma, em anos como este que vivemos, de evitar ter de ser avarento por necessidade, que pelo exposto não é avareza que se apresente.


Dizem-me os amigos, sobretudo aqueles a quem nunca o dom da avareza beijou: “Toma cuidado, ó Joel. Aqueles que são avarentos com o dinheiro acabam por tornar-se avarentos com os sentimentos também.” Pois, por mim, perfeito. Se querem que vos diga, o que mais há neste mundo, por esta altura, é sentimentos. Houvesse um pouquinho menos de sentimentos e um pouquinho mais de avareza e, provavelmente, não tínhamos chegado ao que chegámos. Peço desculpa, pois, se vos destruo os resquícios da bem-aventurança natalícia, principalmente depois de todas aquelas reportagens com os pobrezinhos e os sem-abrigo e as sopas comunitários. Tenho quase 40 anos e tornei-me um avarento. Quem me disse que ia tarde para aprender bem se enganou.







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 8 de Janeiro de 2011


(imagem: © www.a.images.blip.tv)






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1 comentário:
De Manuel Carvalho a 9 de Janeiro de 2011 às 23:09
Muita atenção, para os cristãos a avareza é um dos sete pecados mortais: gula, avareza, inveja, ira, soberba, luxúria e preguiça.
O pecado da avareza está condenado na Bíblia no Décimo Mandamento: "Não cobiçarás os bens alheios". Embora a avareza tenha sido sempre mal vista, já desde a época de Moisés até aos resgates financeiros da actualidade, este pecado criou - e também condenou - grandes impérios. Os sábios, desde a época de Aristóteles até a de Jesus Cristo, arremeteram contra este vício, mas o economista do século XVIII Adam Smith susteve a teoria de que o próprio capitalismo baseia-se no pecado da avareza. Hoje em dia, muitos questionam este pecado e se a avareza se converteu em algo bom.
Mas, por extensão, avareza é tomada também como desordenada cobiça de quaisquer bens e, neste sentido, é um pecado genérico, pois todo pecado é um voltar-se desordenadamente a algum bem passageiro: daí que Agostinho Super Gen . XI, 5) afirme haver uma avareza "geral", pela qual se deseja mais do que o devido alguma coisa, e uma avareza "específica", à qual se chama usualmente amor ao dinheiro. É por isso que alguns situam a avareza como oposto da generosidade e, nesse sentido, a avareza é um defeito ou uma deficiência no que diz respeito a gastar dinheiro e um excesso no que diz respeito à sua busca e retenção. A outra atitude própria do avaro é o excesso no afã de ajuntar para si, do qual procede a inquietude, que impõe ao homem preocupações e cuidados excessivos: O avaro nunca se sacia de dinheiro.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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