Sábado, 1 de Janeiro de 2011
publicado por JN em 1/1/11

Dizem estudos recentes que, quanto mais tarde uma pessoa se deita, mais inteligente é – e, como há já uns anos eu andava desconfiado disso (mais uma prova de como sou inteligente), nem sempre estava acordado à hora do Bom Dia Portugal. Entretanto, porém, dei-me conta dessa pequena pérola da bem-aventurança e da técnica televisiva que se chama Minuto Verde, rubrica dividida entre Francisco Ferreira e uma série de raparigas da Quercus (para mim uma autêntica religião, mais até do que uma associação ambientalista) – e agora dou diariamente por mim em frente ao ecrã, a pasmar, ainda as filas na Ponte não começaram.


Minuto Verde é tão bom, tão bom, mas tão bom, que devia ser pelo menos uma Hora Verde. A minha esperança é que, mais cedo ou mais tarde, os nossos programadores percebam o potencial do eng. Ferreira e das suas Ferreirettes e lhes proporcionem uma gala de domingo à noite. Afinal de contas, gastamos tanto dinheiro em humoristas profissionais, em actores e em guionistas, em câmaras, em equipas de produção e em figurantes, e o humor está todo ali, num homem que fala para uma câmara só, sem guião nem nada. Stand-up comedy pura e dura, é o que é. E da boa, sem essas fórmulas de carregar-pela-boca que o Ricardo Araújo Pereira e o Nilton e o Bruno Nogueira foram roubar aos americanos e que, bem vistas as coisas, não interpretam o sentir nacional.


Em Minuto Verde, damo-nos conta de coisas tão importantes como a necessidade de levar no braço uma cestinha para trazer os ovos da mercearia, de forma a ensinar ao mundo que isso das caixinhas de papelão é no Djibouti e mais nada. Em Minuto Verde aprendemos que um português, para ser verdadeiro, come polvo na consoada, em vez de ir comprar bacalhau aos noruegueses, esses exploradores de petróleo. Quem alguma vez viu Minuto Verde de certeza não passou o Natal a dar presentes aos amigos todos, antes organizando lá em casa um “Amigo Secreto”, para acabar de vez com o consumismo. Se você quer mesmo ser um homem Minuto Verde, já se deixou há muito tempo dessa mania de tomar banho todos os dias – e, aliás, sabe também que não deve puxar o autoclismo de todas as vezes que vai ao WC, puxando-o apenas quando faz um “número 2” e deixando sem problemas os seus sucessivos “números 1” ali a marinar durante o dia.


Tem nojo? Então é porque é um capitalista. O homem do futuro não tem nojo do xixi nem do cocó. O xixi e o cocó são coisas naturais – tão naturais como o suor e o vómito, a saliva e os perdigotos, a voz e o próprio gesto de caminhar. O xixi e o cocó são apenas matéria orgânica – e, aliás, até deviam ser tratados de outra maneira. Segundo aprendi em Minuto Verde, por exemplo, podíamos perfeitamente dar outro tratamento ao cocó dos cavalos que andam ali nos Jerónimos a passear turistas. Bastava os cavalinhos usarem uma fralda grande que lhes apanhasse o cocó: ficavam as ruas limpas e ainda se podia aproveitar o cocó para a produção de energia. De resto, uma das minhas Ferreirettes predilectas até vai mais longe: tem no quintal uns quantos milhões de minhocas que lhe comem o xixi, o cocó e outras matérias perecíveis. De vez em quando entram-lhe duas dúzias delas pela casa adentro, mas paciência: as minhocas são elas próprias naturais.


Nunca se maquilharam, nunca se perfumaram e talvez até nunca tenham mudado de cuecas, as Ferreirettes. E, no entanto, não ficam por aí, as informações de Minuto Verde sobre a sua higiene íntima. Num episódio recente, fiquei a saber, por exemplo, que, em vez de pensos higiénicos, e sempre que se dão conta da chegada daquele incómodo período do mês (apesar de tudo natural, absolutamente natural), elas põem nas suas, digamos, partes um conezinho de silicone que vai aparando o, digamos, sangue ao longo do dia – e que, finda a jornada, pode ser lavado para utilizar de novo no dia seguinte. Eu não sei, mas a ideia com que fico é que até deve dar um certo aconchego. Se José Sócrates anda agora a chamar a esta gente “taradinhos do ambiente”, só pode ser perigoso. Quando vier o cometa, sempre quero ver se o senhor Primeiro lhe apanha a cauda. É o apanhas.







CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 1 de Janeiro de 2011


(imagem: © www.a.images.blip.tv)






tags:
5 comentários:
De Manuel Carvalho a 1 de Janeiro de 2011 às 23:22
Como gosto muito de ouvir rádio, também oiço quase diariamente de Segunda a Sexta “Um Minuto pela Terra” que apresenta um conselho muito prático e simples sobre as inúmeras contribuições que cada cidadão e/ou cada família podem dar para melhorar o ambiente, predominantemente na área da conservação da energia e eficiência energética, mas também noutras áreas como a água, o ar, os resíduos, o ruído ou a conservação da natureza. Diariamente na Antena 1 às 08:58, 14:58 e 05:58, com Francisco Ferreira, Inês Pereira e Sara Campos (Quercus).
Há que destacar o papel da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza, organização não governamental de ambiente (ONGA), fundada a 31 de Outubro de 1985, na sensibilização da população para os conceitos do desenvolvimento sustentável. Especialmente notáveis têm sido as campanhas na comunicação social, chamando a atenção do cidadão comum para as boas práticas em defesa do ambiente. Minuto Verde, da autoria da Quercus, é uma rubrica permanente que integra o Bom Dia Portugal, programa informativo da RTP1, um pouco antes das 9h, Francisco Ferreira ou Susana Fonseca, da Quercus, dão sugestões para podermos adquirir hábitos mais ecológicos no quotidiano. Pequenos programas instrutivos que nos ensinam grandes medidas para vivermos melhor no nosso planeta, a grande casa de todos nós!



De João Ruela a 3 de Janeiro de 2011 às 07:25
Genial, bem ao seu nível.
De Anónimo a 3 de Janeiro de 2011 às 09:14
Sem menosprezar os ambientalistas o post está espectacular! O que é exagero é demais.... é bom que se diga que muitas das autarquias espalham ecopontos pelos concelhos, e depois, juntam o lixo todo e depositam-no na vala comum...

Maria Lino
De Daniela Leite Silva a 3 de Janeiro de 2011 às 19:12
Fabuloso! Acredite que deixei de ligar de ligar a TV enquanto tomava o pequeno almoço porque ficava sempre nervosa com essas pseudo-reportagens!!
De metro madrid a 7 de Janeiro de 2011 às 12:08
Parabéns pelo seu blog, muito interessante. Estou estudando Português, eu não consigo entender tudo, mas quase! ;)

Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
pesquisar neste blog
 
arquivos
livros de ficção

"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
Saber mais


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui