Sábado, 11 de Dezembro de 2010
publicado por JN em 11/12/10

Não é preciso consultar os sociólogos, basta ir ao Eurostat: os portugueses não gostam de trabalhar. Trabalham que nem condenados quando emigram, mas porque se imbuem a si próprios de um certo espírito de missão. Assim que regressam a casa, não demoram a deixar-se contaminar pela indolência. Não sou eu que o digo: são os índices oficiais de produtividade. Regra geral, trabalhamos pouco e mal. Mas nem por isso deixamos de compreender a ética do trabalho – e é então que nos tornamos verdadeiramente divertidos.


Num dia típico, a primeira coisa que um trabalhador português faz é chegar atrasado ao trabalho. Se a hora de entrada é às oito, chega às oito e meia. Se é às nove, chega por volta de um quarto para as dez. Só o fazem aqueles que podem, mas por outro lado esses são os melhores: os que não podem hão-de arrastar-se o dia inteiro, ressentidíssimos por não poderem. Entretanto, a meio da manhã, há a pausa para o café. Os que não fumam têm azar: tiram só um quarto de hora. Os fumadores tiram meia hora inteira: quinze minutos para o café e quinze para o cigarro. Por esta altura, está quase a chegar a hora de almoço – e, como está quase a chegar, mais vale começá-la já. Em vez da uma da tarde, começa-se ao meio dia e vinte. Em vez do regresso às duas, regressa-se às duas e quarenta. E é se não for época de Natal, de Páscoa ou de Carnaval, dia da Mãe, do Pai, da Criança, de São João, de São Pedro, de Santo António ou de Pão Por Deus. Nesse casos, chega-se às três e quinze – e o café da tarde, aliás, também demora um pouco mais. Depois, e se for dia de levar os miúdos ao dentista, sai-se mais cedo. Em jogando o Benfica, nem vale a pena regressar do café.


Se pensam que caricaturo, têm razão: caricaturo. Se pensam que descrevo um cenário datado, não têm razão nenhuma: este Portugal continua a existir. Escapam os profissionais liberais, os recém-licenciados (ou seja, todos os licenciados até aos 40 anos, tanta deles a trabalhar em call centres ou a servir de escravos a analfabetos) e alguns ditos operários não qualificados. Mas nem estes escapam todos. Uns quantos têm a sorte de trabalhar para a administração pública. Esses trabalham menos ainda – e, se puderem, não deixam nunca de meter baixa (normalmente, por depressão), de meter “um artigo” ou, na primeira oportunidade, de se desenfiar, palavra sobre todas as outras portuguesa (mais do que saudade, podem ter a certezinha).


E, no entanto, não é isso que me diverte. O que me diverte é aquele momento em que o trabalhador português efectivamente trabalha. Porque é nele que, de repente, toda a sua ética de trabalho vem ao de cima. O momento em que um trabalhador português efectivamente trabalha é especial – e, quando esse momento milagroso ocorre, não deixa nunca de haver no semblante do trabalhador aquele ar compenetrado de quem está a fazer a coisa mais séria do mundo, mas entrecortado com disfarçadas bispadelas à volta, em tom de: “Olhem para mim a trabalhar. Não gostam de me ver trabalhar?” E os outros trabalhadores portugueses olham mesmo. Primeiro, porque percebem que se está ali, de alguma forma, a fazer história. Depois porque, quando for a sua vez de trabalhar, também quererão testemunhas. Uns aos outros, chamam-se “artistas”. Um é um artista na canalização. O outro, mecânico, é um artista também. Em bielas e pistões, não há pai para ele.


Um normal dia de Lisboa, por esta altura, é feito de sete tipos à volta de um buraco, a ver trabalhar o artista a quem coube descer para reparar o ralo entupido. Dois têm ferramentas na mão, mas para se apoiarem. Um terceiro está atento – é o engenheiro. O quarto foi buscar as minis. Os restantes três são sobretudo testemunhas. Entretanto, chega mais um, este ao volante de um furgão de distribuição. Apita como um louco: “Mas interromperam a rua?! Não há direito. Eu estou a trabalhar, pá!” Até que uma das testemunhas lhe revira os olhos: “Nós também estamos a trabalhar!” Então, o distribuidor apeia-se, fecha o automóvel à chave, grita lá para trás, para a fila que se acumula: “Nada a fazer, os homens estão a trabalhar…” – e vai, enfim, beber uma mini com eles.






CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 11 de Dezembro de 2010


(imagem: © www.sidemission.com)





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3 comentários:
De Textículos a 13 de Dezembro de 2010 às 14:16
Portugal vence campeonato europeu das profissões
(http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=1733719)
«A equipa portuguesa foi a melhor do Euroskills, tendo ganho 9 medalhas de ouro, 12 de prata e 9 de bronze. Fora de competição foram ainda atribuídas 8 medalhas de excelência. Portugal conseguiu 136 pontos tendo deixado a Áustria (99,90 pts) no segundo lugar e a Finlândia (98,54 pts) em terceiro.
O responsável sublinha que Portugal venceu em provas áreas de actividade bastande diversificadas, como atestam as medalhas de ouro nos concursos de cabeleireiro, design e produção de moda, web design ou técnico de frio.
Joalharia, controlo industrial., técnico de electrónica, electricista e maquinação CNC foram algumas das áreas em que Portugal venceu medalhas de prata.
O bronze foi para profissões como produção de calçado, especialista Microsoft ou pedreiro.»
De Manuel Carvalho a 13 de Dezembro de 2010 às 23:58
E se observasse-mos os trabalhadores portugueses nas estatísticas do Eurostat, por outros prismas? Portugal é o terceiro país da União Europeia, depois da Polónia e de Espanha, que apresenta a mais alta taxa de trabalhadores contratados a prazo, de acordo com os números avançados pelo Eurostat. De acordo com o gabinete de estatísticas europeu, Portugal tem 22% da população empregada contratada a prazo, sendo apenas ultrapassado pela Polónia (26,5%) e por Espanha (25,4%). A média de trabalhadores com contratos a prazo (com mais de 15 anos) na União Europeia é de 13,5%, enquanto na zona euro é de 15,2%, acrescenta o relatório do Eurostat, que se baseia em dados de 2009. Mas, por outro lado, de acordo com o Labour Force Survey , publicado em Agosto pelo Eurostat, a taxa de emprego em Portugal em 2009 foi de 66,3%, acima da média da União Europeia (UE) (64,6%) e da zona euro (de 64,7%). Assim, a taxa de emprego nos países da UE caiu em 2009 dos 65,9% observados em 2008. O relatório analisa ainda para cada país a percentagem de trabalhadores a 'part-time' (tempo parcial) existente no respectivo mercado de trabalho. Em Portugal, essa percentagem é de 8,4%, um valor bastante abaixo da média da UE (18,1%) e da zona euro (19,5%).
As qualidades do trabalhador português, na generalidade, não são tão más como as pintam. Normalmente a mão de obra portuguesa, em qualquer ramo ou nível, é bem aceite no contexto internacional, o que muitas vezes não acontece no nosso país o que leva à fuga de muitos profissionais altamente qualificados, principalmente ao nível da massa cinzenta!
De Paulo Esteves a 27 de Dezembro de 2010 às 02:47
Por acaso não costumo ler as suas crónicas na NS, mas esta acabou por me chamar a atenção. Concordo bastante com a sua visão da questão. Aliás, faz tem bastante em comum com o que é falado neste vídeo http://www.youtube.com/watch?v=8JneMIbat7c que apesar de ser uma brincadeira não deixa de retratar algumas verdades. Abraço.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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