Sábado, 4 de Dezembro de 2010
publicado por JN em 4/12/10

 


Há pessoas que acreditam em Deus. Algumas, desprovidas de fé, acreditam noutras pessoas – e umas quantas até preferem acreditar em si próprias, o que é talvez o mais deprimente de tudo. Eu acredito no jogo. Sempre acreditei. Na infância, e quando descia sobre nós o nevoeiro, ensombrando o carácter dos homens e amalgamando o mundo todo numa só massa informe, pardacenta e desesperançada, confortava-me a ideia de que no dia seguinte, chovesse, fizesse sol ou permanecesse nevoeiro, tinha treino de futebol. E, entretanto, toda a minha vida tem sido vivida sob esse signo.


Ao longo dos anos, experimentei de tudo. Joguei ténis, fiz corridas, aprendi o snooker inglês, mudei para o bilhar às três tabelas, apaixonei-me pelo golfe. Nunca acreditei no jogo de casino, porque não há como acreditar nele: no fim, a casa ganha sempre mesmo. De resto, um casino tem poucas potencialidades nos domínios da superação. Aquilo em que eu acredito, na verdade, é na dimensão metafórica do jogo. Na brincadeira, sim (porque não?) – mas sobretudo na superação. Mesmos nos anos mais sombrios, em que a minha actividade desportiva se reduziu a pedalar numa bicicleta entre as quatro paredes de um ginásio, não deixei nunca de tentar pedalar mais do que o ciclista do lado. E o objectivo nunca foi propriamente pedalar mais do que ele: foi levar-me a mim próprio a pedalar mais do que ele – foi levar-me a mim próprio a superar-me  mais do que qualquer outro conseguisse superar-se.


E, porém, mesmo a mim, jogador inveterado, esta crescente infantilização da vida adulta incomoda. Até porque ela não se limita ao exercício do jogo, de que vem tantas vezes disfarçada: alargou-se a verdadeiramente a todos os domínios do nosso quotidiano. Liga-se a televisão para ver um jogo de futebol (cá está o jogo) e, no intervalo, é-se metralhado com quinze minutos de publicidade a joguinhos de computador, a filmes do Harry Potter e a discos do Tony Carreira. Vai-se ao cinema e, para além do Harry Potter, o cartaz resume-se a filmes de animação, a histórias fantásticas com elfos e dragões e a filmes de acção em que os protagonistas fazem corridas com carrinhos cheios de ailerons e de kits. Liga-se a rádio e as estações estão divididas em duas categorias apenas: aquelas que passam Tony Carreira e aquelas que passam “música dos anos 80”, toda ela muito divertida. Sai-se à rua e as raparigas estão todas vestidas com roupa brincalhona, com bolinhas e lacinhos e sapatinhos e sei lá mais o quê.


Resultado: brincadeira com fartura, superação nenhuma. Ainda no outro dia, e ao parar circunstancialmente num café ao lado de um jornal, surpreendi duas jovens jornalistas falando de Tony Carreira. Conhecia uma delas, mas muito vagamente, pelo que nem sequer as fui cumprimentar. E, no entanto, ali estavam elas: falando de Tony Carreira – e no seu tom nem sequer havia a velha sabedoria de redacção, do tipo: “Vá, vamos lá enganar o povo com mais uma peça ou duas sobre o Tony, que de alguma forma temos de vender as notícias verdadeiramente importantes.” Não: elas efectivamente gostavam de Tony Carreira. Achavam-lhe piada, pelo menos. Divertiam-se com a sua música. Da mesma forma que, nos tempos de faculdade, se divertiam com Quim Barreiros, talvez: rindo-se dele – mas, em todo o caso, rindo-se cada vez menos.


E eu acho que um jornalista não pode ouvir Tony Carreira. Dir-me-ão (dizem-me sempre coisas deste tipo): “Gostos não se discutem.” Era o que faltava. Gostos discutem-se, sim senhor. Não vejo mesmo, aliás, nada de mais discutível do que o gosto. E um jornalista não pode gostar de Tony Carreira. Um adulto não pode gostar de Harry Potter. Um homem não pode passar as noites de sábado a jogar ao PES com os amigos ou os domingos à tarde a fazer corridas com outros homens na Ponte Vasco da Gama, fugindo à polícia. E, se pode, então está explicado porque é que este mundo virou uma espécie de grande coutada para tunas e claques de futebol, juventudes partidárias e associações académicas. Infantilizámo-nos de vez – e, naturalmente, jogando no campo deles, perdemos por K.O..



Há anos que vimos apregoando todos, os supostos inteligentes: um homem não se pode levar muito a sério. Pois talvez devesse. Já era altura de pararmos com essa coisa do “explorar a criança que há em nós”, não?






CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 4 de Dezembro de 2010


(imagem: © www.sidemission.com)






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3 comentários:
De Manuel Carvalho a 5 de Dezembro de 2010 às 11:10
É quase como dizia o outro. Graças a Deus sou ateu. Mas será racional acreditar na existência do Deus? Poderá apresentar-se uma boa razão ou um argumento irresistível a favor da sua existência? Alguns teístas dizem que não e baseiam a sua crença na fé, ou seja, acreditam sem provas ou razões. Outros teístas, pelo contrário, pensam que se podem construir argumentos para provar que o Deus padrão existe. De facto, muitas espécies de razões foram apresentadas para acreditar em Deus (e as mesmas razões foram expostas para acreditar em deuses diferentes e incompatíveis). Algumas razões são facilmente classificadas de insatisfatórias. Por exemplo, o argumento de que Deus deve existir porque em quase todas as sociedades as pessoas acreditam nele. A aceitação generalizada de uma crença não é, decerto, uma boa razão para a aceitar. Muitas crenças falsas são ou foram quase universais (por exemplo, a de que a Terra era plana). Mais ainda, apesar de a crença num deus ou noutro ser quase universal, não há um deus em que a maioria das pessoas acreditem. Como poderia, por exemplo, o facto de algumas pessoas acreditarem num deus crocodilo justificar a crença no Deus cristão? (Lembremos que a grande maioria dos crentes não acredita no Deus cristão).
Mas tudo não passará apenas de crenças?. Por exemplo o cronista, evidentemente entre outras "coisas" também acredita nos jogos. E, como tem evidenciado nas suas crónicas, pelo menos na juventude e infância, o Joel tem afirmado que praticou um dos vários ramos do cristianismo, o Prostestantismo.
Essa de afirmar que um jornalista não pode gostar de Tony Carreira ou um adulto não poder gostar de Harry Poter tem o seu quê de picaresco, ou nunca ouviu dizer que Gostos Não se Discutem?



De Maria Lino a 5 de Dezembro de 2010 às 17:58
Pois eu cá acho que não é uma questão de fé, é uma questão de alienação... as pessoas adultas, umas com mais maturidade que outras, sentem-se bem alienadas do quotidiano, do trabalho, dos problemas e precisam de outras formas de estar e de ser para se sentirem bem, pensando assim serem mais felizes...e nesta matéria, gostos não se discutem..., é uma questão de uns se identificarem mais com um ídolo ou um prazer que com outro...
Mas apesar de reconhecer essa necessidade, concordo com o cronista, todos somos demasiado infantis, ao pensarmos que a alienação nos faz mais felizes!
Maria Lino
De Jota a 7 de Dezembro de 2010 às 12:09
Talvez tenha o Joel razão quando aponta a crescente infantilização do ser humano. Mas não me parece que a tenha quando sugere que nos devemos levar todos mais a sério. Analise as grandes catástrofes humanas da História e pergunte-se: foram elas provocadas por indivíduos que se levavam muito ou pouco a sério? Que levavam muito ou pouco a sério aquilo que achavam ser o seu papel no mundo? De resto, as crianças não fazem guerras. Quanto muito fazem birras, que me parecem muito mais inofensivas. Por isso, talvez não seja mau de todo que estejamos cada vez mais infantis. Talvez seja a forma de evitarmos caminhar definitivamente para a desgraça.

Gostaria de discorrer mais sobre o assunto, mas tenho um livro à espera. Chama-se "Harry Potter e a Pedra Filosofal". Dizem que é muito bom.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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