Segunda-feira, 9 de Abril de 2012
publicado por JN em 9/4/12




Quarta-feira, 4 de Abril de 2012
publicado por JN em 4/4/12

A CASA DA MORNA, em Alcântra, tem alguma da melhor comida africana de Lisboa. Cachupa refogada, calulu de peixe, moamba de galinha – só os nomes são poemas. Mas é para ouvir “Regasu” que eu lá volto.

Um homem desenvolve obsessões estranhas, ao longo da vida – e uma daquelas a que mais gratuitamente me tenho dedicado é à da história de Orlando Pantera. Não vale a pena ir à Wikipedia: ainda ninguém se preocupou em devotar-lhe um artigo pop, por mínimo que fosse. E, no entanto, a sua música resiste. Faz esta semana onze anos, o criador do neo-batuku teve uma pancreatite e morreu, na ilha de Santiago. Tinha a idade de Cristo: 33 anos – e, três dias depois, deveria partir para Portugal, onde vinha gravar o disco que se esperava que mudasse a face da música de Cabo Verde. E desde que pela primeira vez ouvi a sua “Regasu (Seiva)”, cantada por Leonel Almeida no velhinho Enclav’ (“Mórna k-um konxé/ Inda mininu na regasu/ Na óra di dispidida um kré també/ Uvi-b oh morna!”), uma parte do meu tempo de lazer tem sido devotada a coleccionar versões dessa que já não me soa apenas a melhor tema da história da morna, mas a banda sonora de um trajecto pessoal, com os seus pequenos triunfos e os seus incontornáveis escolhos. Já a ouvi cantada por Mayra, sofisticada e bela, e por el-rei Tito Paris, rouca e directa ao coração (“Bo seiva/ Invadi-m nha korasom sem limit/ Ai si um pudéss/ Bibé um káliss d’bo meludia!”). Já a passei na rádio cantada por Mário Rui, toda anos setenta. Já a ouvi dedilhada por Noah, soprada por Morgadinho, trauteada por Teté, irmã de Alhinho, o primeiro quase-amigo que tive no futebol, e de quem sinto às vezes saudades inexplicáveis. Desta vez, até a ouvi uma segunda vez na mesma noite, entoada por Dany Silva, já em fim de festa, a pretexto de um grogue. E, no entanto, foi para escutá-la novamente na voz de Leonel Almeida que voltei à Casa da Morna. Foi para mostrá-la aos meus compadres, cujo regresso definitivo a Portugal bem pode significar a minha reconciliação com Lisboa. E foi para tornar a perguntar-me, naquele silêncio íntimo que apesar de tudo um homem sempre encontra, mesmo no meio dos seus mais queridos, como se pode aceitar que uma Providência deixe morrer um criador como Pantera a três dias de registar o seu génio. Então, Leonel chegou-se à frente e lamentou-se: “Bo feitiss ta infeitisa-m/ Bo prága t’amaldisua-m/ Bo séka ta seka-m nha peit/ Más mésmu asim ja-m kre-b oh mórna!” – e de novo me doeu uma dor que eu não conheço. Quanto ao resto, claro: bebemos de mais e esquecemos de mais e lembrámos de mais ainda – e fomos também demasiado felizes e demasiado apaixonados para aquilo que nos aconselham estes tempos, feitos de parcimónia e sobrolho carregado. Custou a excentricidade qualquer coisa como € 37 por pessoa, incluindo aperitivos, cachupas refogadas e vinhos – e estava tudo tão apurado e bom e bem servido, que se nos tivessem exigido mais era igual. Para a próxima, prometo: peço o modje de Manel Antône, o calulu de peixe, a moamba de galinha ou a moqueca de camarão. A não ser, claro, que cante o Leonel. Se cantar o Leonel, então eu tenho de pedir “Regasu” – e “Regasu” acompanha-se com cachupa refogada. Quem diria que uma das mais comoventes refeições de Lisboa podia ser assim, feita de milho reaquecido, com um pedaço de linguiça frita ao lado e um ovo estrelado por cima?

CASA DA MORNA

Rua Rodrigues Faria, nº 21, 1300-501 Lisboa

Tel: 213646399/966408656

Cozinha africana. Estilo/atmosfera: trendy/musical. Vinho a copo. Não fumadores. Reserva aconselhável. Aberto das 20:00 às 02:00. Fecha aos domingos. Preço médio: € 35

O LUGAR

Estacionamento {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Redondezas {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Vista {#emotions_dlg.star}

Decoração {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

O SERVIÇO

Atmosfera {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Know-how {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Carta de vinhos {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Aperitivos e digestivos {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

A COMIDA

Produtos {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

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Quantidade {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Qualidade/preço {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Crónica gastronómica ("Restaurantes"), Notícias Magazine, 26 de Fevereiro de 2012

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
publicado por JN em 3/2/12

O Solar dos Presuntos como testemunha do arranque da época lisboeta da lampreia. E como anfitrião. E como templo. Há coisas que um homem tem de fazer todos os anos – apenas isso.

 

Na maior parte das vezes sou profundamente açoriano, mas uma vez por outra sou um homem do Norte que nasceu por acidente nos Açores e vive por acaso em Lisboa. E foi precisamente assim que voltei a sentir-me quando, um dia destes, liguei para o Solar dos Presuntos, a indagar sobre o arranque da temporada da lampreia.

O restaurante da Rua das Portas de Santo Antão, um dos mais incontornáveis “bons garfos” de Lisboa, nunca decepciona. Aos seus pratos habituais, incluindo as feijoadas de marisco, as pataniscas de bacalhau com arroz de feijão, os filetes de peixe-galo e os cabritos assados, raramente é possível apontar um defeito – e nunca, por nunca ser, exige que respiremos a meio do nome de um prato, como acontece naquelas casas moderninhas em que se come “Lombo de Salmão com Crosta de Ervas em Cama de Vinagrete de Tomate e Redução de Balsâmico”. Ali, e sendo preciso decorar alguma coisa, é isto: às quartas há cozido à minhota, entre Janeiro e Abril há lampreia – e é sempre sublime, ela como ele.

“Começamos amanhã ao almoço!”, respondeu-me um dos empregados, com ponto de exclamação e tudo. Às 12:30 do dia seguinte já lá estou. Sento-me numa mesa logo à entrada e faço o pedido habitual: arroz de lampreia à moda de Monção (dose de três toros por € 28) e vinho verde tinto da casa, o mais fresco possível. Espero. O rito, note-se, não provoca em Lisboa o mesmo estertor social de que se faz rodear no Norte. Mas, também por isso, aqueles que o seguem vivem-no como uma espécie de manifesto, com mais paixão ainda, quase como proselitismo.

Olho em volta. Não há cozinha molecular ou sequer gente demasiado delicada: ali mastiga-se de boca fechada, mas cheia, misturando sabores e cerrando os olhos, à procura de memórias. Pelas paredes dispersam-se dezenas (talvez centenas) de fotos de famosos: estrelas de TV e futebolistas, fadistas e políticos, todos ao lado do proprietário da casa, num dos mais divertidos exemplos lisboetas do já chamado “síndrome do dono de restaurante italiano”. Na mesa ao lado almoçam dois casais franceses – e é a rapariga mais jovem, linda e insinuante, como que saída de um filme de Just Jaeckin, que pede lampreia também, juntando-se à religião.

Decididamente: posso estar a almoçar sozinho, mas não estou só.

E, quando enfim chega a lampreia, no meio de um arroz bem ligado, denunciando o tempo ideal de marinagem em vinho e em sangue e a exposição perfeita à noz moscada, muito mais do que ao cravinho, é verdadeiramente (deixem-me usar esta linguagem) a felicidade que me inunda, uma felicidade íntima e completa, alheia ao barulho da sala e à natureza da cidade e ao próprio mês em causa – uma felicidade que se escapa do tempo e do espaço e não é de outrem senão minha. Então, ergo o verde tinto à luz ténue da porta de vidro e brindo a mais um ano que findou. Se a morte é a mais solitária das etapas, então talvez valha a pena, ao menos de doze em doze meses, celebrar a vida e a sobrevivência e a resiliência e a teimosia em solidão também.

Pela porta continuam a entrar pessoas. Algumas andam a telefonar desde o Natal, outras foram alertadas pelo cartaz preso na montra: “Chegou a lampreia!” Agora, é a sua vez de submeter-se o cerimonial purificador. De qualquer maneira, para o ano voltamos a cruzar-nos ali.

 

RESTAURANTE SOLAR DOS PRESUNTOS

Rua das Portas de Santo Antão, nº 150, 1150-269 Lisboa

Tel: 213424253

 

Cozinha tradicional. Estilo/atmosfera: bom garfo. Sala para fumadores. Reserva aconselhável. Aberto das 12:00 às 00:00. Fecha aos domingos e aos feriados. Preço médio: € 40

O LUGAR

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Redondezas {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Vista {#emotions_dlg.star}

Decoração {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

O SERVIÇO

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Know-how {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

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Aperitivos e digestivos {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

A COMIDA

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Confecção {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Quantidade {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

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Crónica gastronómica ("Restaurantes"), Notícias Magazine, 29 de Janeiro de 2012

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
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"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
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2002
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"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
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Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
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"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
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OBRA COLECTIVA,
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"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
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"José Mourinho, O Vencedor",
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CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
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